JARDIM DOS ENCONTROS
Lugar de encontrar palavras, devaneios, imagens e sonhos plantados a esmo.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Da série NOVOS PASSOS: Odoyà!

Em poucas palavras: decidi que este ano serei mais sociável e vou vivenciar as coisas coletivas de uma forma um pouco mais tradicional. Ir 'aonde todo mundo vai', chegar às festas em horários aceitáveis e ir embora antes da Limpurb passar para me recolher com os demais dejetos.

Tá no começo mas já está funcionando. E o 02 de Fevereiro foi ótimo, simplesmente porque eu acompanhei os fluxos, segui as pessoas e aceitei os convites.

A retrospectiva é menos bem produzida do que a do fim de ano da Globo, mas meus 10 pontos de destaque são:

  1. Eu saí de casa às 17h de um sábado para ir trabalhar algumas horas e acabei chegando às 7h do domingo em casa louca, descabelada e feliz;
  2. Invadi uma festa para a qual não tinha convites oferecendo ao porteiro um amigo famoso como refém e a tática deu certo!
  3. Fui tomar uma água na casa alheia e terminei saindo de lá com um pau imenso e enfeitado para exibir no cortejo dos outros;
  4. Vestidinhos bobocas feitos em costureiras de bairro fazem muito mais sucesso em festas de largo do que qualquer shortinho;
  5. Furei a fila pro balaio (e ainda arrastei duas pessoas comigo);
  6. Netinho surtou geral com essa ideia de dar exclusividade de venda a um produto alcóolico;
  7. Carlinhos Brown devia no mínimo dar um bilhete único praquela homarada que sai batucando com ele pra Alvorada, porque o trajeto Candeal-Dique-RioVermelho-Candeal é desumano! rsrsr
  8. Na hora da oferenda uma criança me pediu uma das minhas sei-lá-quantas flores e eu disse não para, um microsegundo depois, dizer que sim. E quando ela jogou a flor na água Iemanjá a engoliu imediatamente. Achei auspicioso...
  9. Iansã devia deixar de coisa e entender que a festa dela é lá em Dezembro. Chover bem nas primeiras horas da festa da coleguinha é feio, visse?
  10. "Não há melhor lugar do que o nosso lar."
Agora o ano começa de verdade, com os primeiros deveres afetivos cumpridos. Eita, que delícia!


Eu e meu pau enfeitado. Olha a cara de alegria do Erê!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Da série SONHOS DE SEMPRE: De se em se..

Se eu tivesse um bar chamaria Jardim dos Encontros.
Se eu tivesse uma filha chamaria Cecília ou Olívia.
Se tivesse um filho chamaria João. Ou Pedro.
Se eu tivesse um marido ele seria maior do que eu.
Se eu tivesse uma escolha eu escolheria bom senso.
Se eu tivesse uma lâmpada eu pediria tolerância, respeito e alguns bilhões.
Se eu tivesse muito dinheiro eu teria um projeto de educação profissional para crianças e jovens no interior.
Se eu pudesse decidir eu ganharia $8.000.
Se eu pudesse matar mataria os ladrões de sonhos.
Se eu tivesse uma revista ela seria sobre mulheres comuns.
Se eu tivesse tempo eu leria mais.
Se eu tivesse joelhos eu dançaria frevo.
Se eu pudesse mudar de profissão sem esforço eu seria médica e advogada e contorcionista.
Se eu tivesse alguém pra me sustentar eu já falaria 10 idiomas.
Se eu fosse me photoshopar eu me daria cintura.
Se eu pudesse escolher eu me faria focada.
Se eu pudesse doar eu doaria empolgação.
Se me deixassem voltar eu retornaria aos tempos de ballet.
Se eu fosse mais forte eu já teria partido.
Se eu fosse mais fraca eu já estaria dormindo o sono da rotina.
Se eu não acreditasse em mais nada eu ainda acreditaria no bom humor.
Se eu criasse um remédio seria contra HIV.
Se eu fosse um bicho eu seria um cavalo alado.
Se eu fosse uma deusa eu seria Perséfone.
Se eu fosse uma comida eu seria algo crocante.
Se eu fosse uma língua eu seria o italiano.
Se eu tivesse um dom eu queria cantar.
Se eu fosse uma fruta eu seria uma manga rosa.
Se eu tivesse chance eu seria amiga de Chico e Jorge.
Se ele estivesse por perto eu me apaixonaria por Marlon.
Se eu fosse uma outra pessoa eu seria Marilyn ou Meryl.
Se eu fosse um lugar eu seria Paris. 
Se eu pudesse criar eu criaria asas.
Se eu pudesse mudar eu mudaria a história da África.
Se eu fosse um provérbio eu seria 'Bambu que não enverga, parte'.

Enfim...

De 'se' por 'se', Paris caberia em um dedal. E tenho dito. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Da série MENSAGEM NA GARRAFA: Segredos em caixas de viagem

Tenho anseios de encontros, reencontros, desencontros. Idas e vindas que beiram o lago. É sempre a mesma história: um lago, um sorriso calmo seu, meu deleite, um beijo que me tranquiliza e a partida. Mas não me ansiedo, porque é uma partida com retorno, é um adeus breve.
E não dói.

(...)

Eu poderia ser apenas sua se você quisesse. Inteira: corpo, mente, tempo, anseios, olhares, desejo. Eu desejaria desembarcar em ti, precipitar-me nesse seu porto. Porque você me olha, meu bem, e eu me tranquilizo. Eu fico submersa no seu ritmo, eu desacelero, eu respiro. E isso tudo é saúde, sabe?

Se me viro do avesso, é apenas por hábito antigo, mas até por dentro eu somente lhe sorrio. E me aquieto.

(...)

(...)

Tenho anseios de novos encontros, de múltiplos encontros, de reencontros, de permanências. Mas como pedir ao outro o que o outro não tem para nos dar? Os quereres são tão diversos que só me resta abraçar umas parcas lembranças e me alegrar porque elas ainda persistem. E eu já morri e renasci e morri e renasci de outra forma tantas e tantas vezes que nem suponho imaginar que esta seria a última. A cada morte a dor é, sim, para um eterno sempre a durar somente até o próximo encontro.

(...)

Ei, antes de partir saiba: eu me apaixonei primeiro por sua voz. 

Considere isso, meu bem...

E, por gentileza, deixe um pouco dela comigo, que eu te devolvo no nosso próximo cais.


sábado, 4 de maio de 2013

Da série SALTOS NO TEMPO: Motocontínuo

A vida é organizada em ciclos, já sabemos. Mas tem retornos que pressupomos que não vão acontecer, porque estão amarrados ao Tempo e ele, até onde sei, é fluxo contínuo e único. Sempre em frente, sempre em frente...

O fato é que estou retomando a pontos chave de uma construção pessoal; problemas antigos em contextos novos, então nem mesmo a chance de já ter soluções possíveis para a situação eu pareço ter.

Não estou reclamando, porque a confusão é toda aqui por dentro mesmo. Mas que me cansa determinados reencontros com coisas que pareciam definitivamente resolvidas, ah... isso cansa.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Da série VIDA DE TODO DIA: A segunda abolição



Cresci com elas, sempre com elas por perto. Mas o senso moral e o respeito ao outro de minha mãe e meu pai são dessas coisas que fariam morrer de orgulho qualquer herdeiro, o que nos nos permitiu ser educados dentro de um caminho que incluía compreensão das relações sociais mais complexas.

Renilda, Gal e Conça sempre foram trabalhadoras queridas e respeitadas em casa mas nunca deixaram de ser exatamente isso: tra-ba-lha-do-ras, que tinham seus direitos respeitados efetivamente. Eu e meus irmãos sempre brincávamos que Conça era invariavelmente mais bem-tratada do que a gente, porque meu pai nunca falava alto com ela, nem se estressava, sempre pedia por favor e compreendia quando ela não podia cumprir uma tarefa que ele indicasse. E ela ainda ganhava um salário dobrado, com todos os direitos e, ainda por cima, era a gente que tinha que ir pra fila do INPS pagar as guias de recolhimento do salário dela. Ô vida dura essa de filho de s. Rodolfo...

Meu pai e minha mãe são assalariados que construíram um patrimônio graças a uma rotina diária de trabalho, e sempre me pareceu óbvio que ser empregado não era nada pior, em qualquer categoria que estivéssemos. Isso terminou imprimindo em mim um senso de responsabilidade e um imenso orgulho ao exercer uma função profissional, mesmo quando se tratava de vender casadinhos na escola, limpar o chão da loja ou enrolar fitas de linóleo num cabo de vassoura pra reaproveitá-las depois. Trabalhar permitiu-me dar sentido à minha vida e à minha energia, de forma que, não importasse o cargo, eu sempre via as pessoas com respeito porque sabia que, de alguma maneira, elas estavam dando sentido à vida delas também. Por isso lá em casa não havia ‘secretária do lar’ mas ‘empregada doméstica’, como meu pai era ‘empregado na Petrobras’ e minha mãe ‘empregada da escola’.

Ainda criança perguntava pra Conça porque ela não era lavadeira como as irmãs dela e ela repetia que preferia trabalhar em casas de família. E a vi abandonar o emprego de auxiliar de enfermagem no hospital porque lá 'o salário era pouco, o ambiente era ruim e as pessoas não se respeitavam'. Era muito claro que Conça não sentia vergonha de estar com a gente e nós, por nossa vez, fazíamos nosso papel de empregadores, valorizando o trabalho e deixando as maluquices de classe o mais fora possível da relação profissional. Almoçar com a gente, ter direito a uma siesta e controlar os horários de trabalho dela eram o mínimo e nunca me pareceu possível ser diferente.

É claro que sei: nem todas são como Conça, nem todos são como S. Rodolfo e D. Neide. Nem todo trabalho é bom, mas todo trabalho que não o escravo permite a quem o executa escolher como usar sua energia e, principalmente, pode ser uma ferramenta incrível para tirar a pessoa do lugar e fazê-la avançar. Isso já dá sentido a muita coisa, muita mesmo... Enfim, na minha cabeça, trabalhar sempre foi uma coisa boa e por isso me parece ser uma obrigação respeitar a todos os que estão honestamente fazendo o mundo girar.

Assistir a aprovação da PEC e toda essa discussão é como presenciar a uma novidade velha, porque na casa dos Azevedo Silveira nunca fora de outro jeito. Foi graças a isso que, bem egoisticamente, eu posso hoje respirar ALIVIADA por ter nascido em uma família em que essa ficha já veio 'caída', e que não estou somente agora, em pleno 2013, notando toda aberração que era essa relação com as empregadas domésticas em nosso país.

Com tantos vexames que já passei na vida, sorrio feliz por não ter que contabilizar mais esse. E cheia de amor, agradeço por termos escolhido o caminho certo naquela casa dos pouco numerosos (mas sempre atentos ao outro) migrantes sulistas.

terça-feira, 19 de março de 2013

Da série PREGUIÇAS DE TODO DIA: Mulherziiiiiiiiiiinha


Determinadas brincadeiras, certas indiretas, alguns melindres, umas disputas idiotas...
...e às vezes eu tenho certeza que sou uma trans-operada-de-fábrica, porque mulher não hei de ser. 

Sei lá... Tanta coisa pra fazer e o povo desperdiçando energia pra desejar mal ao outro.

sábado, 2 de março de 2013

Olhei uma foto e fui acometida pelo desejo de viajar. Vi as cores, senti os cheiros desconhecidos, ouvi vozes em novas línguas... fui tão distante com o coração encerrado dentro do peito. Eu vi.

Minha alma não é fixa, não adianta. Eu vôo num universo de imagens a cada história que me contam, a cada saudação que me apresentam, a cada sonho noite adentro. Eu vôo.

Os saltitos são do ânimo, mas quem os carrega é o corpo. Eu salto.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Da série CONSTATAÇÕES ÚTEIS: Tocar no ontem

O passado me faz mal. Muito, muito mal.

Cada vez que olho para ele eu me pergunto severamente 'Para onde a minha vida está indo?'. As respostas sempre, invariavelmente, são péssimas e me fazem sentir uma mulher derrotada pelas próprias escolhas erradas e passos desajustados.

(...)

Nesses momentos eu simplesmente odeio a mim mesma.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Da série FILOSOFIAS COTIDIANAS: Fair play

Estou 'sem sal e sem pimenta', como bem diria um funcionário nosso. Não por um fato único (porque as coisas acontecem, sempre acontecem, queiramos ou não), mas por uma sequência de fatos, de pequenos fatos, de minúsculos fatos encadeados. No quesito 'Levar na esportiva' eu sou uma esportista profissional, cheia de frustrações de todas as cores e tamanhos em meu currículo. Sempre olho com o olhar do aprendizado, respiro fundo e sigo para os caminhos seguintes. Não sou dessas que carregam as dores como tesouros, eu quero mais é ficar paupérrima de tesouros desse tipo! Eu amo minhas conquistas, guardo-as como amuletos ao lado das histórias de aprendizado (que às vezes se confundem com as histórias de machucados), mas tem horas que a coisa toda pesa e é legítimo choramingar um tantinho para ver se o Destino se compadece e começa a pegar mais leve.

(...)

É isso, enfim. Neste verão a Bahia não verá meu rebolado em toda sua grandeza, porque eu acabo de perdê-lo um pouquinho...

A vontade é apenas de gritar mas eu admito que não tenho a menor segurança de que alguém me escutaria. (Talvez a quase totalidade do problema resida justamente aí: no achar que nada disso importa a quem quer que seja.)

Paciência. O ano está apenas começando.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Da série ORAÇÕES DE TODO DIA: Tudo novo de novo


Com a certeza de que a felicidade é, sim, composta também por nossa capacidade de se angular diante da realidade, de re-significar, de re-olhar, re-ver, re-fazer, re-crer, eu então nos desejo um ano de renovações nos ânimos e nos bons olhares.

E nos desejo ainda olhos sadios para reconhecermos os bons frutos e uma boca sensível para responder ao sabor da fruta.

(Se o mundo segue à largo de nossa vontade, que pelo menos a gente não passe à largo da beleza do mundo)

E sorrindo - porque é melhor do que 'não-sorrindo' - sigamos, reangulando-nos diante de nossas realidades reais ou inventadas.

Bons 300-e-sei-lá-quantos-novos-dias pra gente!

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Não há nada a esconder. Nada a dissimular, a mentir, a desmentir, a fingir que nunca existiu. Minha pele é fina demais para manter qualquer coisa não revelada debaixo dela. Basta olhar nos meus olhos e as respostas serão dadas, mesmo que a boca sequer faça menção de se abrir.

(...)

É complicado manter a realidade à distância. Neste jogo que eu nunca tinha jogado, desconheço as regras de falta e fartura e termino por perder a mão por excesso de clareza. 'De longe as palavras soam mais pesadas do que são', assim como na TV as pessoas parecem mais gordas do que na vida, deve ser quase do mesmo jeito... Eu não tenho como precisar isso, na verdade, mas eu sinto isso ao longe mesmo; e fico numa agonia que somente uma filha de Marte poderá compreender.

Acontece ainda que daqui a pouco o momento é outro e recomeçamos o ciclo mais longo de todos, esse ciclo que chamamos de 'ano'. Eu adoro os novos anos, porque eles apresentam sempre novidades quentinhas e numerosas para nos deleitarmos enquanto buscamos nossas construções pessoais. As minhas são TANTAS que canso somente por pensar nelas, mas essa agonia pré-realização é parte do que há de mais interessante em minha personalidade (e por conta disso aceitei fazer as pazes com ela...)

(...)

Hoje fui a um Oráculo e ele me revelou coisas que eu já sabia e, por conta disso, tudo me pareceu ainda mais importante. Porque não se tratavam de ideias a serem trabalhadas e sim ações concretas a serem lançadas no plano da realidade. É preciso agir por mim mesma; senti isso com clareza. Mas na agonia de sentires eu termino que meto os pés pelas mãos e acabo a me sentir como neste exato momento. E eis que eu queria estar em mais de um lugar ao mesmo tempo e essa vontade tão louca vai praquela gaveta das certeza irrealizáveis. Mas é isso... Fins de noite nem sempre são agradáveis para aqueles que desejam demais.

Ai... a cabeça vai mais veloz do que as palavras. Espero me libertar dela assim que possível for.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Da série ORAÇÕES: Reduzir a distância

Tomei um baque. Assim, há poucos minutos, por conta de uma notícia. O Tempo parecia querer me avisar que ele já tem o seu ritmo definido, que é necessário acompanhá-lo às vezes. Que ele é amigo, muito amigo, mas há os momentos em que ele não pode esperar. Que é preciso viver mais ligeiro, com mais presença, mirando menos o porvir e mais o passo do instante. E que, sim, é preciso agir agora, reduzindo a distância entre o pensamento e o gesto.

(Encontros recentes me sacolejaram o ânimo. Abriram umas janelas no fundo do cômodo, que pareciam já esquecidas. E crio então a oração íntima que diz: "Reduz o tamanho da estrada, Pensamento, porque não há tempo de percorrer tudo o que falta a pé", e a repito como um mantra que me purgará dos males e medos de todo dia).

Se o mundo não acabar, será esta a minha resolução do novo ano que se entregará a nós: reduzir a distância entre o querer e o realizar.

Vai bem, querido Hamilton. E desculpe o mal-jeito e a falta de generosidade mundana da mocinha aqui. Espero que possa me perdoar, sinceramente. E ficam os meus agradecimentos por sua gentil forma de me ensinar sobre as coisas.


domingo, 28 de outubro de 2012

Da série REFLEXÕES SOBRE QUALQUER COISA: Give me me back, buddy!

Esta última semana foi algo da categoria 'Inacreditável'. Não aquele inacreditável de letras imensas, maiúsculas... nada daquela coisa letras-vermelhas-sobre-fundo-amarelo-ou-vice-versa. Mas, sim, um inacreditável imprevisto, como, sei lá, a mais saborosa das comidas de rua (essa prazerosa fonte de felicidade urbana, que nunca pára de me surpreender), como um banho de mar numa tarde de quarta-feira, como um luar de lua cheia ou uma canção ou um cédula encontrada ao acaso no bolso de um jeans. Inacreditável da categoria que não sustentaria um livro inteiro de tão prosaico, mas boa demais por ser imprevista.

In com Im em mim esta semana de ser Fênix mais uma vez.

Pensando que a semana começa num domingo, eu sorrio primeiro com um desses cruzamentos urbanos de ideias que nos fazem atravessar a noite em claro.
Em seguida a 2ª feira me carrega pelas estradas de nosso estado, cada vez mais bonito e empoderado de sua riqueza imaterial.
Vem a 3ª pra me levar à reunião, à solução, à cena e à mesa, com encontros que foram apenas soma. Ufa!
A 4ª começou cedo, me brindando com a companhia de 04 das mais fantásticas mulheres que irei conhecer na vida. Inspiração tanta, tanta, tanta que ajudou o tempo a passar depressa. E o dia finda com direito a reencontro com novos e antigos afetos que me preencheriam por um ano inteiro.
E as boas companhias seguem pela 5ª, que me doa ainda novas belas mulheres artistas de nossa Bahia de Obá.
6ª é dia de finalizações de coisas muito, muito, muito importantes.
Sábado fecha mais um ciclo e abre outros, com novas amizades nascendo.
Domingo encerra mais um ciclo (benzadeusIsabela), ao lado de afetos.

(...)

A semana chegou ao fim. Mas alguma coisa não se respondeu, e os diálogos imaginários vêm à tona enfim.

- Mas, e onde está o tal do inacreditável então, sra. Isabela?, pergunta o Cético.
- O inacreditável reside nas pontas da semana, meu caro.
- Nas pontas, e isso existe. Como assim?, indaga ele irônico.
- A loucura mora nos cantos das certezas. Porque eu era rio e tristeza e dor e confusão antes desse belo furacão reorganizar tudo, senhor. E, tal como eu, as flores da janela ficaram lindas novamente.
- Sorria então com a nova florada, mocinha.
Ela silencia um pouco. E constata:
- Mas é que hoje mais cedo roubaram meu sorriso junto com minha cidade, meu caro. E como comemorar quando só há o pior a se esperar..?

Como sorrir simplesmente quando tudo parece estar descompassado outra vez?

domingo, 21 de outubro de 2012

Da série MENSAGEM NA GARRAFA: Le farfalle nello stomaco

Simples. Bem simples mesmo. De tão simples, a constatação da semana dói que não me larga. E veja que algumas coisas têm andado bem, bem até demais, a ponto de me carregarem nos braços e não me deixarem inerte nem um diazinho que seja.

(...)

Sonhos de ser novamente adolescente para poder choramingar semanas inteiras por conta de um machucadinho prosaico no ânimo. Há um desejo de correr até lá, interpelar, reclamar, exigir todaclarezadomundoagorababy! assim, em um fôlego só. Comprometer o dia, o mês inteiro, as horas de toda vizinhança com essa busca; desmarcar cada compromisso e dizer "Somente este projeto é importante agora, pessoal!" e ir atrás de tapar o buraco que me causaram bem aqui, entre o pulmão e a boca do estômago.

Eu até poderia, mas não quero. Mesmo que esta maldita náusea não passe, eu não quero me expor tanto assim. (Olhe só que ironia... eu não desejo me expor desta vez. rsrsrsrs)

Mas, atenção, não se precipite, caro leitor! Este recado vai ao vento, ao vazio, ao incerto. Não é destinado para você, nem para ele, nem para nenhuma delas em verdade. Os personagens são tantos, ó meu bem, mas não é para qualquer um deles. Este recado é para mim, projeto maior de uma vida comprida que tanto me desgasta. 

Se não é para ti, porque soltar verdades ao vento, afinal? Talvez porque desta vez nem a posição protetora, nem as longas siestas, nem o choro longo, nem os cafunés amigos vão amenizar a agonia que está cravada no meu juízo. Porque o que rejeitaram foi eu mesma, foram as minhas ideias que foram rejeitadas, minha visão de mundo que causou o desagrado, meu vocabulário que soou dodecafônico demais para uma alma troppo adagio. Sempre fui a moça do allegro, não há borboletas no estômago que me façam esquecer disto, mas me negaram por completo desta vez e isto é imenso demais para se curar em um par de dias.

As mãos tremem um pouco com a energia que sou obrigada a engolir desde que a náusea me foi doada. Rígida e esticada, braços içados e cabeça para cima como a moça do circo que enfia lanças goela adentro para impressionar a plateia atônita. Os espectadores que daqui se aproximam não costumam desembolsar nenhum tostão para conferirem o meu circo particular, mas eu me sinto meio mágica meio domadora nesses dias, estalando no ar o chicote que controla a fera que trago atrapada a meus calcanhares.

Nesta luta tão inútil, nunca sei se torço por mim ou pela besta de boca aberta à minha frente, porque ambas estão tão apavoradas que tudo o que despertam é pena e um pouquinho de tédio sincero.

(...)

Lembremos apenas: outros espectadores virão assim que este número chegar ao fim. Nauseada como for, sigamos enfim, porque o show não pode parar.

domingo, 14 de outubro de 2012

Da série PALAVRAS AO VENTO: Debout, Isabela!

Tenho um canteiro de pequenas flores na entrada da minha casa. São umas florezinhas ordinárias, que nascem em qualquer lugar, mas que decidi colocar num vaso à minha janela porque eu acho elas muito bonitinhas e contaram-me que eram fáceis de cuidar.

O que ocorre é que elas precisam de mais atenção do que eu previa; se não as molho, ficam feias de dar dó. Mas estão ali desde minha chegada ao Garcia, então trocá-las por outra espécie não me soa tão legítimo assim. De todo modo, algumas vezes que elas parecem efetivamente mortas eu decido: 'Já deu', e me agendo mentalmente para substitui-las. Aí que, se tomo essa decisão mental numa 6ª feira, é quase certo que antes mesmo do domingo elas estejam floridas e vistosas novamente, como por uma mágica capacidade de auto-preservação.

Prevendo o fim, eis que se renovam a partir do que parecia perdido!

(...)

Eu sou como essas florezinhas ordinárias. Um ciclo maluco de morre-renasce-floresce-murcha-começatudodenovo que, puxa..., é tão veloz que perco a paciência inúmeras vezes. Não havendo exílio destas terras mesmo quando elas parecem definitivamente esgotadas, é aqui mesmo, no meu parco terreno afetivo exausto que procuro novo alimento. 

Tenho conseguido, por mais que a florada não venha sendo tão bonita quanto eu gostaria. Mas... c'est la vie, enfim.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Da série A MULHER NO ESPELHO: Contabilidade

Lembro de um dia acordar no meio da noite e ver minha mãe ao pé da cama contando meus incontáveis hematomas. Sempre fui de ficar marcada e a surpreendente cifra de 87 arroxeados na minha pele tão branca não foram, de fato, surpresa para mim.

Muitas noites passaram e aquela cena nunca se repetiu, mas as marcas se acumularam num total que perdi de vista há tanto tempo... MarcaS, num plural eterno e repetitivo.

(...)

Ao encontrar um recente afeto, noto que ele nota tão rápido minha imensa mancha roxa na perna que termino por ficar completamente sem-graça. E mesmo que aquilo vire piada no segundo seguinte, a vontade que tenho é de dar um salto e confessar a ele e a todos: aquelas marcas vêm de dentro! 

Mas eu me calo, meio envergonhada, porque é cedo demais para exibir-lhe as entranhas.

(...)

Os encontros são muitos na vida; profusões diárias de trocas de informações, de desejos, de experiências, de sorrisos, de ações. Adoro gente, mesmo quando igualmente detesto cada um. Eu gosto, realmente, de me embolar na vivência de alguém e ver daquele contato nascer uma nova camada de entendimento das coisas à minha volta. Num mundo que comporta tanta diversidade, não haveria de ser possível nem mesmo a um incansável Odisseu a descoberta de todas as terras que se escondem do lado de dentro daqueles que encontramos. Por isso eu gosto tanto de abrir minhas portas, meus olhos&boca&ouvidos e deixar o outro desbravar os meus continentes desconhecidos para, em seguida, convidar-me a desbravar-lhe os seus. Adoro encontros. Adoro.

E depois de tantos caminhos reais e imaginários desbravados desde sempre, eis que me encontro com um desconhecido que morava tão perto que nunca poderia prever-lhe a existência. Como tão perto e tão longe?, era a única questão que martelava a cabeça nos primeiros instantes. Mas fui assim mesmo, com a pergunta ecoando dentro do juízo, e terminei por abrir-lhe minhas portas, deixei-o entrar, sair, perguntar, revistar, rir, descobrir, levar o que quisesse. Foi tudo tão rápido, e tão simples, e com um interesse tão sincero que, ao invés de tranquila, fiquei honestamente apavorada. Adorando aquele turista em minhas terras fiz a mais boba das escolhas e, ao invés de relaxar, achei de me distrair consultando o antigo livro de assinaturas com a lista de todos os recentes visitantes. (!) Pulsava naquela caixa de lembranças tanta confusão e desafeto e medo e angústia e dor que quase bradei ao distraído visitante que fosse embora antes de incluir ali o seu nome. Por um instante o quis longe de mim, mas uma risada no ar terminou por me tranquilizar pelo menos até o fim da visita.

E, ufa, foi tudo ótimo. E eu me comportei como uma boa anfitriã. E me despedi na porta. E o vi partir. E fui para frente do espelho. E me despi. E encarei meu corpo. E ali vi tantas marcas que não haveria tempo suficiente  numa vida para contar todas elas. E me horrorizei de tal modo com aquela visão que chorei de-ses-pe-ra-da. Notei enfim o quão machucada eu estou, a ponto de não reconhecer a tranquilidade quando ela me bate à porta. Perdi os olhos para o afeto, desconheço a doçura, fiquei surda para o silêncio. Emburreci da alma, de certo modo.

E me vi tão sensível ali, sozinha, com aqueles hematomas me cobrindo inteira que senti vergonha. Mil vezes mais do que quando ele apontou-me a imensa marca na coxa.

Em geral eu tenho apego a minhas cicatrizes, porque elas são parte do eu sou. São minha construção mais intrínseca, totalmente inalienáveis. MINHAS. Mas, de algum modo, o que foi trazido pelos olhos do moço-bonito é da matéria da tranquilidade, da paz, da calmaria, da maciez. E aquela ranhura toda sobre mim terminou por perder o sentido e me fez sentir excessiva de alguma forma.

Me perdi, enfim.

Estou com vontade de correr, mas fico. Depois de muito, muito, muito tempo, acho que é melhor me manter onde estou e com as portas abertas a esta ilustre visita. Apavorada, admito, mas disposta a acolher essa imensa novidade.

(...)

Eu, ser do grito, começo a desejar ser alguém do sussurro. 


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Da série VERBOS QUE MUDAM TUDO: Contemplar e encontrar

É como um trem: ansiedade imensa para conseguir comprar o passe, marcar um bom assento, encontrar a plataforma correta, chegar na hora agendada... Pânico quase sempre.

Mas assim que as malas são colocadas no bagageiro e a cabeça se acomoda junto à janela, a tranquilidade toma conta de tudo, e não resta nada que não a contemplação sadia do caminho. Adoro este momento, porque minha voz se torna calma e eu viro porto e deixo de ser nau. E meu sorriso é mais brando e meu olho é mais bonito e tudo se torna mais simples em meu entorno.

Sensações diametralmente opostas. Agonia que começa com a loucura da busca, o medo da ausência, mas se desfaz na primeira curva da estrada e dá lugar a uma das coisas das melhores que existem em mim. Às vezes me distraio mas jamais perco de vista a estação correta da minha descida.

(...)

É assim. Bons encontros me causam isso. Espero que eu nunca perca o prazer de contemplar a paisagem lá fora e os assuntos aqui de dentro.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Da série SEGREDOS AO VENTO: Moda Primavera-Verão



















Interesse & Desinteresse; minha peça double face favorita.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Direto do desktop


Da série SEGREDOS AO VENTO: Polaridade

(...)

Demoro a encontrar a palavra certa. Na verdade as palavras certas, no plural, tão plural quanto os encontros vividos. Muitos, muitos, talvez até além do que minha capacidade de renovação poderia dar conta. Mas estive lá, presente, e deixei cada encontro entrar, cada afeto se instalar, cada coisa se posicionar e se espalhar e performar e se exibir no máximo. Até o momento que disse que era a hora da partida, e pedi delicadamente que se retirassem.

E alguns foram sem relutar, outros insistem em retornar e deixar bilhetes na porta quando a encontram fechada. É natural; eu faria o mesmo. E respeito os tempos de todos, inclusive os meus, então não há qualquer problema em descolar os recados da entrada e posicioná-los em um cantinho novo da memória. E foi.

E vinha assim alternando momentos de desinteresse sincero e desconfiança profunda. Pelo menos até agora pouco. Alguns encontros simplesmente não me demoviam. Outros, me anunciavam a catástrofe já no momento da entrada. Se fosse qualquer pessoa mais saudável do juízo em meu lugar, mais tranquila per si, menos ariana, diria a qualquer um dos visitantes recentes que não viesse mais, que não poderia recebê-los, que estava ocupada demais. Mas  ao meu olhar a beleza do ser humano é essa mesmo: a riqueza de detalhes bons e ruins. E ela só pode ser vista depois de ser retirada a superficial camada de verniz que a gente teima em colocar sobre a pele. Para isso é necessário se deter um tiquinho que seja sobre a carne e curti-la até sangrar um pouco, mostrar uma nesga dos nervos, revelar-se nua. Essa parte é a mais bonita, mas qualquer erro no manuseio da faca do curtume pode causar danos profundos. Por isso a delicadeza precisa ficar sempre à mão, guiando os gestos e orientando o ritmo da coisa toda. 

Nesse processo aprendi a silenciar. Assim como não há como se perguntar ao  couro se a faca está a machucá-lo, não se pergunta a um afeto se ele traz na bagagem traumas, dúvidas, desconfianças ou expectativas malucas. Não; isso não se pergunta. É preciso então trazer a delicadeza próxima às orelhas e usá-la como concha vazia a sussurrar a memória do mar se se quiser entender o outro que se coloca à sua frente. 

Sou boa com a faca mas ainda não muito com a concha, admito. Estou aprendendo a passos meio lentos, mas sigo. 

(...)

Pressinto que os próximos dias se converterão em duros treinamentos de escuta. Vamos acompanhar...