JARDIM DOS ENCONTROS
Lugar de encontrar palavras, devaneios, imagens e sonhos plantados a esmo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Da série PALAVRAS AO VENTO: Nero e seus descendentes

E eis que acordo detestando tudo. O dentro, o fora, o entorno, as formas, as esperas, os cheiros, as texturas, os sons, o toque. Vontade de ser Nero e lançar fogo sobre tudo, extinguindo as verdades do mapa enquanto elas ainda ecoam em algum lugar. 

(...)

Reconheço no ar esse movimento de ódio e descrença e, Deus é Pai, peço ajuda (que espero que chegue logo). Se não, amanhã serão pratos ao chão, afetos no lixo e projetos lançados ao vento. Não quero mais nada, nem este corpo, nem estes olhos, nem esses afetos, nem este sangue, nada nada nada. Por mim, queima tudo e começa de novo!

E não me peça - ninguém de honradez pelo menos - para não ser tanto sentir; os sábios entenderiam o quão impossível é isso. E quero assim que tudo no meu entorno se desfaça como sopro e que o telefone toque por outros motivos e que outros quereres venham gerar meus passos e organizar meus sorrisos. Quero tudo novo, porque enjoo mais rápido do que uma jovem tirana recém-empossada querendo mostrar seu poder.

Enfiada num trono maior do que o corpo precisaria, os pés nem tocam no chão, e a cara de enfado é fato diário; ela entende que não poderia estar ali, mas bem sabe que não caberia em nenhum outro lugar. Tirania errante, por assim dizer.

Enfiada até o nariz na própria loucura, a verdade é que isso cansa, e se por dentro eu fosse macia como acho que devia ser, os meus ânimos não seriam tão cíclicos. E cínicos. Queria outra coisa, outro jeito, ser diferente mesmo, sabe? Maciez dentro da armadura, mas não essa loucura líquida de mudar de forma a cada estação. (Apatia, euforia, apatia, euforia, apatia, euforia, apatia, euforia, apatia, euforia... para daí virar salto-giro-destruição-grito, é um pulo. Porque eu me canso de tanta circularidade, tantas mudanças sem-quê-nem-pra-quê).

(...)

E o ruim, ruim mesmo, é chorar copiosamente lançada ao chão sem sequer saber o porquê. Não é uma dissimulação envergonhada (para quem ela seria, ora pois?), mas um choque de idiomas entre mente e corpo.  NÃO SEI PORQUE ESTOU ARRASADA, mas sei que um tornado desfez todos os campos arrancando as árvores pela raiz. Que dia, hora, como, porque isso aconteceu, não me perguntem, pois a verdade é que nem vi. Talvez tenha vindo por debaixo da terra, e feito o solo borbulhar e cuspir seu manto colorido para se ver desnudo outra vez. 

Depois do charco, a feiúra. E só então as flores de novo. Talvez.

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