JARDIM DOS ENCONTROS
Lugar de encontrar palavras, devaneios, imagens e sonhos plantados a esmo.

sábado, 14 de julho de 2012

Da série A SORTE NO BISCOITO CHINÊS: Lições para ser Soma

A verdade é que já fui muito amada. Por amigos, amigas, parceiros, parceiras, família, marido, namorados, conhecidos, colegas; realmente não poderia reclamar disso.

A verdade é que ainda sou.

Às vezes sou intragável, eu sei, mas talvez porque isso faça parte do charme. E porque também já me machucaram tremendamente, ora por vontade de machucar, ora por estarem demais preocupados com os próprios quereres. Acho esta última possibilidade muito legítima, e me fez ter aprendido a ser uma boa perdedora. Sei, aos quase 30 anos, reconhecer bem quando não dá pra mim, quando não é minha vez, quando é preciso abandonar o barco. E vou-me embora com toda dignidade que dispor no momento e certamente sem disparar blasfêmias contra os que me dispensaram. E sei que a vida é cíclica, e em momentos outros serei eu a escolher/selecionar/dispensar outros seres, e estar tranquila para fazê-lo é poderoso remédio para lidar com as rejeições passadas e futuras.

Não posso muito reclamar, mesmo, de todo amor que recebi, ainda que ele não tenha me sido dado por acaso; estive sempre muito, muito atenta para aprender com aquelas pessoas que vivem rodeadas de carinho. Aprendi a abrir a porta para os bons afetos entrarem e saírem, e distribuo carinho quando o tenho. Se em dias de casa vazia as ansiedades apertam a mente e sopram no ouvido 'que os tempos de ser amada acabaram', eu as mando embora com telefonemas sadiamente claros, informando aos amigos que preciso de uma dose extra de cuidado, de preferência delivery. E, boa negociadora que sou, não me importo se meu desejo não for saciado no primeiro lance, e faço mais tantas ligações quanto forem necessárias para me ver de pé de novo.

(...)

Comecei a semana virada do avesso, por conta de coisas que sequer consegui compreender. Louco, louca,  loucura(s); reconheci o bater da Depressão à porta, e antes de deixá-la entrar acionei os afetos que poderiam botar a monstra para correr sem que ela invadisse minha casa, batesse na minha cara e roubasse todos os meus bens. Ufa! A humildade misturada à certeza de que não estou sou só me salvaram de mais esse confronto. Os afetos vieram, em seus ritmos e com suas armas próprias, fosse ela a luz do sol, a praticidade ou um mar de palavras tremulantes. E se recebi um deles aos prantos, ao despedir-me eu sorria, após uma sessão cantarolante de banho quente. Obrigada, quiabito...

(...)

Então, observando as pessoas que reclamam da falta de amor, olho para trás e vejo quantos golpes foram necessários para moldar uma alma aberta ao bem-querer. Amaciei-me consideravelmente ao longo dos anos, engolindo ofensas, re-formatando críticas para se tornarem mais delicadas, negociando com minha mesquinharia e egoísmo, lutando com minha arrogância. Por enquanto não houve nocautes, mas posso considerar que venho ganhando essa luta por pontos. (O maior defeito é ainda a capacidade de simplesmente abandonar as pessoas, sem grandes explicações ou excusas, apenas abrindo a porta e partindo. Conquistar e ir-me; não sei direito conjugar o chegar e manter-me...).

Quando olho a lista de ex-namorados (praticamente todos são pessoas por quem guardo e de quem recebo afeto), de ex-colegas que sempre me têm com carinho recíproco, ao notar o sorriso e alegria verdadeira de amigos espalhados pelo mundo ao nos encontrarmos e observando a tranquilidade de minha família eu silenciosamente agradeço. Porque afeto pode ser raiz e não necessariamente flor, dessas que apontam na beirada do galho e se exibem olorosas. Não precisa, mesmo; basta saber que eles estão ali sustentando a gente e amarrando-se a outros troncos que dando suporte até mesmo os carinhos desconhecidos.

(...)

Ontem um amigo me disse: "Você está no lugar que deveria estar". Achei tão bonito, porque tinha uma verdade e doçura ao me ler que só pude sorrir. Eu concordo com ele: eu tento tratar as pessoas com carinho e respeito, mesmo quando sou confusa e terrivelmente atrasada nas soluções. E se eu poderia auto-aceitar-me em minhas diletâncias, sofro horrores porque ser descuidada também machuca. Mas tenho tentado honestamente, assim como outras vezes eu me vi exercitando para aprender a dividir o meu lanche ou conter críticas maldosas ou aprender com a diferença, que é inerente ao mundo. E foram muitos perdões a tantas pessoas, e tantas desculpas sinceramente apresentadas e, o mais complicado, tantas rotas corrigidas antes do choque que, por fim, os louros vão brotando no quintal. E hoje eis que sou uma divididora verdadeira, que compartilha tudo o que dispõe, na certeza de que não me faltará a minha parte nas horas importantes. Quando minhas mesquinharias pipocam na porta de entrada, eu deixo elas entrarem, converso com todas, observo-nos juntas, discuto, abro os ouvidos para suas mensagens e, ao invés de tentar me esconder, o que eu escondo é a comida até o momento que elas decidirem ir embora. Porque elas vão um dia e, se não posso matá-las, posso expulsá-las por fome ou desconforto, aceitando que essas pequenezas são parte de mim também.

Aos que lutam por amor, recomendo: analisem suas despensas, leiam os rótulos de cada caixa, lata e pacote e selecionem aquilo que alimenta os afetos e não os orgulhos. Como uma pesca, o amor é da natureza da espera ativa, onde criar condições é mais importante do que perseguir os quereres. Sugestão de uma moça complicada e instável que vem sobrevivido a si mesma apenas cuidando bem daqueles que estão à sua volta.


E sejamos soma e não subtração sempre que pudermos, por fim. Pois se nós estamos por nós, quem estará contra nós?

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Da série PALAVRAS AO VENTO: Nero e seus descendentes

E eis que acordo detestando tudo. O dentro, o fora, o entorno, as formas, as esperas, os cheiros, as texturas, os sons, o toque. Vontade de ser Nero e lançar fogo sobre tudo, extinguindo as verdades do mapa enquanto elas ainda ecoam em algum lugar. 

(...)

Reconheço no ar esse movimento de ódio e descrença e, Deus é Pai, peço ajuda (que espero que chegue logo). Se não, amanhã serão pratos ao chão, afetos no lixo e projetos lançados ao vento. Não quero mais nada, nem este corpo, nem estes olhos, nem esses afetos, nem este sangue, nada nada nada. Por mim, queima tudo e começa de novo!

E não me peça - ninguém de honradez pelo menos - para não ser tanto sentir; os sábios entenderiam o quão impossível é isso. E quero assim que tudo no meu entorno se desfaça como sopro e que o telefone toque por outros motivos e que outros quereres venham gerar meus passos e organizar meus sorrisos. Quero tudo novo, porque enjoo mais rápido do que uma jovem tirana recém-empossada querendo mostrar seu poder.

Enfiada num trono maior do que o corpo precisaria, os pés nem tocam no chão, e a cara de enfado é fato diário; ela entende que não poderia estar ali, mas bem sabe que não caberia em nenhum outro lugar. Tirania errante, por assim dizer.

Enfiada até o nariz na própria loucura, a verdade é que isso cansa, e se por dentro eu fosse macia como acho que devia ser, os meus ânimos não seriam tão cíclicos. E cínicos. Queria outra coisa, outro jeito, ser diferente mesmo, sabe? Maciez dentro da armadura, mas não essa loucura líquida de mudar de forma a cada estação. (Apatia, euforia, apatia, euforia, apatia, euforia, apatia, euforia, apatia, euforia... para daí virar salto-giro-destruição-grito, é um pulo. Porque eu me canso de tanta circularidade, tantas mudanças sem-quê-nem-pra-quê).

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E o ruim, ruim mesmo, é chorar copiosamente lançada ao chão sem sequer saber o porquê. Não é uma dissimulação envergonhada (para quem ela seria, ora pois?), mas um choque de idiomas entre mente e corpo.  NÃO SEI PORQUE ESTOU ARRASADA, mas sei que um tornado desfez todos os campos arrancando as árvores pela raiz. Que dia, hora, como, porque isso aconteceu, não me perguntem, pois a verdade é que nem vi. Talvez tenha vindo por debaixo da terra, e feito o solo borbulhar e cuspir seu manto colorido para se ver desnudo outra vez. 

Depois do charco, a feiúra. E só então as flores de novo. Talvez.

domingo, 8 de julho de 2012

Da série A SORTE NO BISCOITO CHINÊS: Toda a verdade

A verdade, mesmo, é que eu sou instável que dói.

(...)

Pensei em mil coisas pra escrever, mas tantas, que até cansei antes de começar. Então, exercitando meu poder de síntese, finalizo meu final de semana com a afirmação acima.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Da série POR QUE NÃO SOMOS FEITOS DE PLÁSTICO?: Before the breakfast

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Para dias em que um pouco de emoção antes mesmo dos sucrilhos seria bem-vindo...


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Da série O QUE AS ESTAÇÕES ENSINAM: Deixar-se ser Nilo

...sim, porque a gente não tem um lago dentro da gente, mas um rio. Ou melhor; antes do rio que corre há ainda a fonte que o faz nascer. Nossas águas são de fluxo, de caminho, de seguir... nascemos preenchidos de água de correr, por assim dizer. Então não podemos ter medo delas.

Quando a amiga disse sua resolução de novo ano ("Neste final de ano gastarei t-o-d-o o meu dinheiro; aí ano que vem eu sento e choro.") e a cumpriu, eu amei-a tanto por sua sabedoria para lidar com seu rio. Eu achei ela tão imensa e sábia e ainda mais bruxa que meu movimento foi unicamente do encantamento. Nem me deu o ímpeto de reaver minhas estradas de dentro e seguir para as margens de meus próprios espelhos d'água. Mas hoje, ao acordar, me perguntei porque de fato não estou incomodada com as perspectivas no horizonte imaterial. Parei, me indaguei olho-a-olho, e vi a moça de cara amassada responder-me tão tranquila que nada temia porque conhecia bem o caminho de ida e de volta nessa estrada diária de construções afetivas.

(...)

Vai, mulher, vai, até onde as pernas e pés e ânimos puderem te levar. Quando virar o novo ano de seu juízo, você retorna se arrastando se for preciso, se deita ali, aninha-se e chora. Chora, chora, chora, chora.... e deixa que esse rio estancado por dentro transborde pelas barragens e te engula e vaze e nutra tudo de novo. Uma estação depois da enchente destruidora, o rio que te corta será fio de água novamente, e mesmo com os olhos ainda doendo vai conseguir ver a beleza da vida crescendo às suas margens. Eu, mulher-Nilo, mulher-seca-enchente-florescimento, mulher-ida-volta-rodopio-grito, renascerei mais bonita do que nunca a partir das minhas margens encharcadas de lama. Essa lama rica que se cria na beira dos nossos rios de correr, à qual nunca se pode temer porque nela habitam os microrganismos que comem nossas incertezas e renovam toda a terra que nos sustenta os pés.


Rainha do Nilo, porque não? Àquela que não temer as enchentes sempre terá a sorte de contemplar a colheita da estação seguinte; Ela me confessou há tempos ser exatamente esta a sua força. 

domingo, 1 de julho de 2012

Da série PREPARAR, APONTAR...: Intuição, Senhora das ações

Logo após me separar, eu preenchi o oco interno com muito, muito, mas muito ruído externo mesmo. Encontrei um amigo gêmeo de alma em termos de hiperatividade, e cumprimos juntos todo o roteiro de festas, serões de trabalho e conversas na cozinha madrugada adentro. (Lov u, Ciroco!!!)

Era comum eu enlouquecer e ser a alegria das festas, nas quais devo ter bebido pelo menos 30% do meu soldo mensal. Era realmente divertido, e Ju era uma das companheiras mais frequentes naquelas incursões noite afora. Saudade dela.

E foi ela que, recebendo um muchochento telefonema meu num domingo de tarde, me chamou atenção para o fato de que aquela depressão infeliz que eu sentia de forma recorrente poderia ser nada mais do que uma rebordosa por conta de um cigarro mentolado que eu costumo fumar. Uma ressaca química, por assim dizer.

Acho que ela estava muito certa, e salvou-me de gastar em intermináveis sessões de terapia às quais teria ido para localizar o incômodo existencial que me acometia todo domingo ao acordar... Ainda bem que é mais simples.

(...)


Ontem foi um dia de festa. Nada tão pesado a ponto de comprometer a conta bancária como outrora, mas divertido o suficiente a ponto de gerar muito lixo que precisei juntar em sacos grandes e levar até o alto de minha rua. Foi divertido, foi afetuoso, depois ainda foi gostoso. Então, porque será que acordei de madrugada completamente incomodada com um sei-lá-o-que que está me fazendo sentir enjôo de tanto que está mexendo comigo? Whatfuck do you feel, Isabela? Come on, honey, help your own mind (or heart, I don't know actually...).


Aí que estou aqui, LOUCA-DA-SILVA, porque entendi que é hora de arrumar a casa. As casas na verdade, com direito a mudanças por fora e por dentro e pelos lados e por trás e no futuro à frente. Tá uma consumição interna por conta de algo que nem consigo reconhecer, e sei que nesses momentos a minha intuição é coroada senhora de mim. Ela tocou seu alarme, e só ficarão as coisas sob sua aprovação, isto é certo.

Enfim; dia de arrumações. Furacões apontam no horizonte, então o momento é de levar as coisas mais importantes para o abrigo no porão e deixar o restante voar pelos ares.

(...)

Que assim seja, então!



terça-feira, 19 de junho de 2012

Da série PALAVRAS AO VENTO: Engoli-lo, gestá-lo, nascê-lo


Hoje um encontro me tirou o chão.

Não o encontro da manhã, que é curso leve de rio, que conduz tranquilo o olhar do passante. Esse ficou na sensação da manhã, no sorriso, no perfume. Veio comigo, mas ficou lá ao mesmo tempo; dialética do sentir.

Mas, então; hoje um encontro me tirou o chão. Na verdade me roubou o rumo, me descontrolou, me virou do avesso. Ele fora. Eu dentro. E os olhos se encontraram pelo vidro que ele molhou. Aí eu o reconheci; quase o tinha perdido no fundo da memória, porque o que mora em mim é apenas uma criança do lado de fora. Sempre fora, mas, sabe... nunca tinha sido tão fora quanto hoje. A gente se reconheceu, mas não nos sabíamos mais, porque aqueles que se conheceram há tantos anos se perderam num tempo de esperanças. Naquele tempo eu acreditava que um dia estaríamos os dois do lado de dentro. Que não haveria mais um fora tão mortificante quanto o desta tarde.

Eu parei naqueles olhos, que são tão duros que não deixaram nem o rastro reconhecível do garoto por debaixo daquele encarar de pedra. E foi minha vez de virar rocha diante do ex-menino-esfinge, que me mordia com os olhos boiando sem lugar.

A água sobre o vidro vira água sobre os olhos, escorre pelo queixo, molha o colo, as pernas, os pés; enlameou tudo com aquela dureza de pedra a rolar sobre minha memórias. 

Eu lembro que sentamos juntos e conversamos lá atrás. Alef. Ele era um menino, era pequeno, e era loiro. E tinha um primo, Júnior, que era negro e dentucinho. Eu levava presentes e conversava sobre o como era bom dividi-los. E sentava com eles e escutava as histórias bobas de criança e as perguntas sabidas que só podem ser feitas por quem observa o mundo estando de fora dele. Eu amava aqueles meninos dentro do que eu poderia amar. E sonhei tanto e vibrei tanto e emanei e desejei e projetei e fiz tanto quanto sabia fazer para que existisse, mesmo que num plano distante, uma energia de amor direcionada àqueles dois pequenos. 

Dois pequenos... Um deles encontrei hoje, já meio médio meio grande. Ele tinha uma espécie de bigode de adolescente, e ele me reconheceu com os olhos, mas não sei se dentro da cabeça. E ele molhou o vidro que congelou nossos olhos, e meus olhos então que se molharam de dor como se tivesse vendo o meu filho morto dentro daquele rapaz. (...) Não é vaidade do que roubaram 'de mim', mas dor lancinante pelo que roubaram dele! Está errado... Eu queria sair dali e gritar por entre os carros e contar pra todo mundo quando era eu quem levava carros de plástico para a gente sonhar um pouco juntos. Está errado e não há mais como fazer isso gritar dentro da gente!

(...)

Hoje esse encontro me tirou o chão. Ainda estou chorando, não posso negar. Tá sangrando aqui dentro e não sei como fazer estancar, meu Deus. Vontade apenas de engolir aquele rapaz e gestá-lo e pari-lo de novo pelo olhos, só pra nos dar a chance de recomeçar por um novo começo.

Mas eu não posso.

Hoje um encontro não me tirou o chão. Na verdade, hoje um encontro me tirou um pouco de tudo aquilo que morava na parte mais bonita de minha memória...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Quando eu era gincanista....

(...)

Sim, eu já fui gincanista. Dessas de se referir a si mesma alguns anos mais tarde como 'gincanista', como se fosse esse um título a zelar. E de certo modo até era, porque a gente sempre ganhava t.u.d.o, incluindo amigos, respeito dos professores pela capacidade de organização, uma-coisa-parecida-com-admiradores vindos das classes vizinhas e, é claro, o grande prêmio em dinheiro que dava pra pagar uma viagem BALA para algum lugar do estado. Bons tempos...

Mas então; quando eu era gincanista eu já era ocupada. Descrevendo minha rotina de adolescente para um moço-querido esses dias eu notei como, PQP!, desde sempre eu sou uma pessoa lotada de afazeres. Eu costumava acordar 5:15, fazer exercícios no meu quarto enquanto assistia Telecurso 2000, preparava meu café, arrumava minhas coisas, tomava banho, passava meu uniforme, me maquiava (ato religioso desde 14 anos), CAMINHAVA uns 2km até a escola, assistia aulas até 13h, às vezes estudava com os outros mais atrasados até umas 14h, voltava caminhando (sempre com a meta de emagrecer mais e mais e ainda economizar uns trocados), tomava banho, fazia minha comida de dieta, es-tu-da-va umas 5h, me arrumava, ia pro ballet, fazia sei-lá-quantas-horas-de-aula, voltava andando de novo, arrumava minhas coisas pro dia seguinte, lia alguma coisa e, aí sim, ia dormir.

Em época de gincana era tudo isso mais ir no Cabula e em Nazaré de buzu só pra convencer os colegas do colégio conveniado a se juntar à minha equipe, cortar papel, criar coreografias, gerenciar finanças, argumentar com professores para me liberarem das aulas, vender lanches para levantar grana pra equipe, conversar com fornecedores, conversar com pais de  bons alunos do 1º grau para que eles autorizassem a participação dos filhos na gincana, conversar com pais de maus alunos do 2º grau para que eles igualmente autorizassem a participação dos filhos na gincana, me relacionar com os outros líderes da equipe (quase sempre quatro marmanjos), negociar com minha família o empréstimo de um zilhão de coisas, negociar com meus hormônios adolescentes, dar pesca pros amigos que já estavam quase perdendo de ano e, claro, achar um tempo pra motivar as mais de 200 pessoas que compunham a equipe. 

(...)

Nunca compreendi como eu sobrevivi à minha adolescência!

Pois que, quando eu era gincanista, eu já não gostava de gente correndo com cara de desesperada pelos corredores. Sempre tive certeza que o Tempo era coisa pra se gerenciar e nunca para ser perseguida que nem um fugitivo. Cunhei nessa época a frase pseudofilosófica: 'O Tempo é meu amigo', completada invariavelmente com a pergunta: 'Se seu amigo estiver caminhando muito rápido em sua frente, você corre atrás dele ou vai pedir pra ele ir mais devagar?'. E aprendi cedo a pedir pro tempo me aguardar.

Em algum momento, ainda nova, eu entendi a não me desesperar com as coisas, mesmo quando elas parecem ABSURDAMENTE acumuladas. E fiz um tantão de coisas na vida apenas cumprindo uma depois da outra, ou todas ao mesmo tempo, mas sem o desespero de achar que não vai dar. Acho que sempre irá dar, e trabalho para isso acontecer.

A porra do meu mestrado (e um namoro desestruturante concomitantemente) me roubaram um pouco dessa clareza, que estou reconquistando dia a dia. Alguma coisa nos astros reacendeu há poucos dias a chama do auto-controle temporal que existe em mim, e lembrei como é ser dona dos meus sentidos e ferramentas de trabalho. Parece que estive dormindo e acordei. Santa felicidade, Isabela, você está de volta!

Mesmo doente eu tinha um zilhão de atividades pra dar conta ao mesmo tempo. Mas agora elas não tem me dado tanto pavor. E olhe que atualmente o que está em jogo é bem mais do que boas notas e uma viagem de fim de semana com os amigos. Hoje eu respondo por um teatro, integro o trabalho de um grupo de artistas, lido com alguns milhares de reais dos outros, compartilho experiências e conhecimentos de assuntos sérios, gerencio minha casa, minha saúde, meu peso, minhas dezenas de afetos, minha conta bancária, enfim... meu Tempo! E sempre atenta para não deixar o bom-humor se escoar, porque ele é fluido leve que se evapora num piscar de olhos.

Ai. É isso. Estou feliz (ainda que não esteja eufórica) com esse retorno. E queria firmar isso em palavras públicas. Tarefa cumprida, termina aqui o que poderia interessar ao resto do mundo; o que se segue é apenas uma listinha de demandas no modelo dessas que habitam minha vida desde a tenra juventude:

  1. Adaptar projeto Andrea 1;
  2. Adaptar projeto Andrea 2;
  3. Adaptar projeto moços 1;
  4. Adaptar projeto moços 2;
  5. Adaptar projeto Bebé;
  6. Escrever projeto educação;
  7. Enviar proposta financeira cantora;
  8. Prestação de contas dos outros;
  9. Definir horários com músico e videomaker;
  10. Elaborar Termo de referência ocupação;
  11. Elaborar Termo de referência outubro;
  12. Re-revisão dos procedimentos de rotina;
  13. Fazer guia de procedimentos equipe;
  14. Contato com centro de cultura canadense (projeto!);
  15. Enviar presentes Ucrânia, Canadá, Coreia e Suíça;
  16. Preparar material de amanhã cedo;
  17. Preparar material da semana que vem;
  18. Organograma projeto de circulação;
  19. Revisão dissertação;
  20. Compras da casa;
  21. Começar academia;
  22. Médicos (todos os que faltam);
  23. Documentos em aberto;
  24. Pagar itens em aberto;
  25. Arrumação cozinha (armários, geladeira, etc);
  26. Arrumação sala (forro sofá e quadros);
  27. Arrumação escritório (limpeza geral);
  28. Fazer mercado!!!!;
  29. Passar na costureira pegar roupas;
  30. Passar no sapateiro pegar itens;
  31. Mudar de agência bancária;
  32. Colocar aparelho;
  33. Relatório nosso;
  34. Enviar presentes Québec;
  35. Processo de mudança geral;
  36. Pós-2;
  37. Iniciar inglês;
  38. Iniciar francês;
  39. Capas Magritte;
  40. Devolver os livros emprestados;
  41. Terminar os 45 livros que faltam;
  42. Pendências do carro (buzina, limpador, tapetes, etc);
  43. Coisinhas bobas (novos sapatos, itens de cozinha, roupas, cremes, dormir...);
  44. Projetos artísticos: COMEÇAR!;
  45. Resolver trânsitos afetivos;
Acredite; isso são apenas as demandas importantes, relevantes e que têm prazo para serem cumpridas. Ainda teria uma tonelada de coisas se eu começasse a listar o que eu desejo fazer, como viajar, tomar um banho de folhas ou retornar pro ballet. 

Mas é isso. Acho meio bonito essa coisa de heroína que tem tantas demandas À espreita e ainda assim consegue sorrir, tomar banho, namorar de vez em quando e até comer decentemente. Acho bonito, sim... não era de ser assim, mas a verdade é que eu sempre achei bonito.

Agrava um pouco a minha situação o fato de que eu cuido de mim sozinha, solita, solita, à exceção dos amigos que tantas vezes se cedem a mim por amor e cuidado. Mas de ser 'dona' mesmo dos problemas, aí é tudo comigo. Às vezes dói, mas em geral dá só satisfação depois que fica pronto. Então, sigamos rumo à reta final, que espero eu que seja beeeeeem distante de onde estou neste exato momento. Energia gera energia; esta é uma certeza.

Alors, allons-y, Isabela!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Da série PALAVRAS AO VENTO: 1,2,3,4

1. Ok; eu não sou fácil. Mas sou honesta e amorosa e leal. Claramente leal, ainda que vez ou outra a certeza do ser abandonada me faça repensar sobre essa faceta. E nem adianta, viu?! Tentou me controlar, me dobrar, jogou 'contra' meu jogo, eu saio pela tangente. Porque eu estou me dando bem comigo mesma e não vou arrendar essa paz a qualquer preço. E, olhe, eu g.o.s.t.o de trocar, de compartilhar, de abrir as portas de casa e da rotina, então sejam bem-vindos; só não venha mexer na arrumação dos móveis e palpitar no tempero da comida sem receber autorização prévia, porque simplesmente não vai rolar. // E estou sendo sincera; não sou uma dessas reclusas que têm a solidão como companhia preferida. Mesmo! (...) A verdade é que esta postagem é para mim. Porque eu gosto de ficar sozinha, mas queria mais opções de compartilhamento. 

2.  Un jour elle m'a dit que je suis une femme d'épouser... plusiers. C'est vrais, la tellement lourde verité. A mais pura verdade.


Agora,... quem tem coragem de vir nessa jornada que muda de cenário a cada solstício? Como negociar com o ego do outro e convencer de que talvez eu mude de ideia, então sejamos apenas o momento presente? (...) Eu não viria, na moral...

3. Há um lugar na casa reservado para o devaneio. Nada mais apropriado do que o silêncio como companhia, porque a poesia minha é construída com imagens em giz-de-cera e não com palavras. Não há o que dizer que não seja apenas para abrir a porta das metáforas internas. Sou uma moça de discursos internos, sim sim, meu senhor...

4. O meu corpo afirma ódio eterno a alguns hábitos; cansaço, desgaste, dores, devoluções, inchaços, entupimentos. A rotina me diz que não acharemos solução juntas, então será preciso jogá-la na lona e vencer por cima de seu querer. (...) Me perdi, mas vou me achar. Eu, a mocinha do controle, me dôo com a errância dos passos. Mas uma coisa que a maturidade tem ensinado desde o seu apontar no horizonte é a como ter paciência.

Assim sendo, terei-a!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Da série MENSAGEM NA GARRAFA: O homem do vestido

Foi uma noite onde se falou da perspicácia dos cachorros, da origem do gato, das curvas iluminadas, das vontades da véspera, de acocorar-se aos pés, da sabideza dos olhos, da mulher com pano.

Noite de entrega à beleza, porque ela é valor em si.

"Primeiro, último e infinito." Sem nunca haver brigas, nunca haver lágrimas, de fazer restar apenas o sorriso. E o segredo contido no silêncio.


(...)

Eu gosto muito desses encontros. 
Obrigada por trazer ele pra mim.

sábado, 26 de maio de 2012

Peguei umas manias bestas de dormir em cima do computador, assistir séries de policiais sem parar, de abraçar o celular pra dormir mais 10 minutinhos e perder a hora, de enrolar-me nos compromissos, de procrastinar e, agora, de travar os dentes.


E nem vou comentar sobre meus hábitos alimentares e meus completos NÃO-hábitos de exercício.


(...)


Afff. Quero brincar de ser outra, até pelo menos formatarmos esta aqui.

domingo, 13 de maio de 2012

Da série REFLEXÕES PRUM (MEU) MUNDO NOVO: BBMP X Intelectuais de FB

Por mim, cada um se interessa pelo que quiser. Sou irmã de dois nerds típicos, desses que jamais jogaram futebol na vida e faziam intermináveis reuniões de RPG lá em casa. Na minha família era eu quem jogava futebol (até de campeonato participei e vivia roxa de me engalfinhar com os moleques do prédio), eu que dancei pagode, eu que liderei turmas de gincana, eu que AMAVA praia&piscina. Fui taxada de burra e inculta e desinteressada pela boa cultura e blábláblá na minha própria casa, e já me doí um monte por isso. Mas fazia ballet, ouvia boas músicas, li muito mais do que a média, mandava muito bem na escola e adorava conversa com adultos. Então não é de se surpreender que eu tenha sido taxada de CDF e chata na escola e no prédio. Aí, óbvio, me doía bastante.

(...)

Mas os anos passaram e eu simplesmente aprendi a tocar o 'foda-se' por completo. De fato NÃO ME IMPORTA o que o outro quer fazer ou como quer conduzir seus interesses, desde que não se intrometa nos meus. Sério mesmo. E sou uma boa ouvinte daqueles que querem conversar sobre futebol, sobre moda ou sobre Nietzsche, porque sei que no final das contas aquela pessoa vai embora assim que o papo acabar e, mesmo que esteja chato, eu posso aprender alguma coisinha com o outro.

Ouvir a cidade inteira berrando enlouquecidamente à minha volta por causa do BAxVI só me incomoda porque eu tenho um pouco de medo de rojão. E o povo adora segurar a latinha com uma mão e soltar rojão com a outra então eu sempre sinto que numa hora vai dar merda. Afora isso, mesmo conhecendo todos os efeitos nefastos que a alienação de um povo pode causar no caminhar de uma sociedade, não consigo associar simplesmente essa paixão louca pelos times de futebol à uma postura burra diante do mundo. Na real, eu mesma gosto demais de futebol, mesmo não tendo oficialmente um time. Ir a um estádio é uma daquelas experiências que me emocionam imensamente, porque enxergo ali um tipo de comportamento de grupo que não pode ser visto em muitas outras situações de maneira segura. 

Lendo o Facebook, é sim meio chato 49% postando BBMP! e outros 49% dando força ao Vitória num discurso retotônico. Mas, pra mim, insuportável mesmo são os 2% restantes reclamando que nem uns intelectualóides neuróticos porque os outros gostam tanto assim de futebol. Deixa a galera lá, minha gente, na moral mesmo. Se você se ressente porque as pessoas aplicam a energia delas com algo que não traz nada de positivo para sociedade, guarde sua indignação para o momento em que tivermos algo de positivo a ser feito e para FAZER, nem que seja motivar o outro a se importar com o coletivo.

Eu me assusto um pouco com esse furdunço, sim, mas porque eu me sinto uma falsa moça séria e profunda quando eu noto que me empolgo com coisas tão diferentes. Semana passada, por exemplo, era eu quem estava esfuziante, mas porque o Sarkozy tinha perdido a presidência da França. Chorei de emoção assistindo à votação da união civil igualitária pelo Supremo Tribunal Federal e sou capaz de acabar com a noite de todo mundo discursando pesadamente sobre péssimo curso que a nossa política cultural está tomando nas mãos da incompetente Ana de Hollanda. Minhas paixões são outras e posso ser tão sanguínea ou sem noção quanto o meu vizinho que passa buzinando e berrando Baêa!!!! 

O que me dá cansaço é quando as pessoas supõem que paixões como as minhas me fazem superior aos outros seres humanos por envolverem política, cultura, direitos humanos ou algo que o valha. A minha paixão pode ser tão inócua para a melhoria do entorno quanto eu sacudir ensandecidamente o bandeirão na janela como fazia o meu ex-namorado, se eu não levar isso adiante. Uma bandeira hasteada não muda o mundo de ninguém, pouco importando qual a insígnia  impressa nela.

Seriedade é essencial para fazer algo importante da vida. Mas um pouco de alegria boba nunca fez mal a ninguém...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Eu sei dançar, me maquiar, cozinhar, sei escrever, desenhar cubos, falar e ler e escrever em francês, sei um monte de histórias de mitologia, sei algo de inglês, sei usar os talheres, usar o excell, falo um espanhol de criança mas falo, sei fazer declaração de imposto de renda, sei fazer percentagens de cabeça, sei escolher frutas no mercado (abacaxi eu aprendi a escolher esses dias, com Fabão), sei me comportar em praticamente qualquer ambiente, sei fazer as minhas unhas, sei dirigir, sei ler mapas, sei orientar as pessoas, sei conversar com gente diferente de mim, sei falar em público, sei contar piada, economizar nas contas domésticas, dar conselho, ouvir conselho, sei pedir ajuda, sei onde moram meus medos, sei a diferença entre um coreano e um japonês, sei arrumar uma mala, sei mentir para as autoridades, sei ser a autoridade, sei pregar botão, engraxar sapatos, colocar bobes, elaborar um orçamento, terminar um relacionamento, fazer um novo amigo, escolher um presente, sorrir quando necessário, delegar tarefas, calcular tempo&distância, regras de três, tirar quase qualquer mancha de tecido, saber se vai chover de olhar o céu, sei ficar sozinha, sei dar uma festa, sei mandar as pessoas embora, sei cumprir com a palavra, sei pedir desculpas, olhar relógio analógico, sei a diferença entre sustenido e asterisco, sei ser elegante, sei ser deselegante, sei entreter uma criança, sei entreter um teatro lotado, sei dar aula, sei cuidar de mim, sei reconhecer os sinais de meu corpo, sei me arrumar, sei escolher roupa pra mim só de olhar, sei quais meus direitos, sei ser terna, sei ser bruta, sei escrever roteiro, sei criticar um trabalho, sei contratar um prestador de serviços, sei fazer combinados, sei ler e redigir contratos, sei votar, sei fazer backup, sei catar feijão, sei me aquecer, sei onde mora meu prazer, sei onde procurar o prazer do outro, sei como andar sozinha numa cidade que não conheço, sei alugar um apartamento, sei mobiliar um apartamento, sei criar um roteiro de viagem, sei dizer se uma comida tá estragada pelo cheiro, sei contar vantagem, sei dar vantagem, sei calcular INSS e IR e ISS e CPMF (quando precisava...) e sei como fugir disso tudo também, sei que o amor é reciclável, sei reconhecer quando estou apaixonada, sei reconhecer quando o outro está apaixonado, sei programar videocassete, sei tudo que é regra de gramática (mesmo errando um monte), sei fazer um juramento e cumprir, sei guardar segredo, sei alimentar um afeto, sei ser justa, sei perder, sei ser um porre, sei ser um doce, sei escolher o que comer num restaurante novo, sei comer direito, sei dar os parabéns, sei esquecer de tudo isso pra aprender tudo outra vez.

A rotina apura o meu olhar para poesia. Teoria da física: o movimento de velocidade contínua é também inerte, pois é na variação que a dinâmica se dá. Se minha vida atinge uma velocidade e ali se mantém, a inércia abre as portas da percepção e libera o ânimo para olhar a paisagem.

(...)

Decidi ser artista para ter um desafio novo a cada dia. Consegui o que queria. Na verdade eu poderia dizer que desde os 20 anos eu estou sofrendo de uma overdose de desafios, com raros momentos de exceção. Nesses instantes de pausa, o corpo nem sabia bem o que fazer com tamanha tranquilidade e terminou por adoecer de dores pra dentro e pra fora. Carro de corrida projetado para vôos em solo, meu espírito nunca sabe como se portar quando o condutor deseja apenas passeios dominicais em uma arborizada rua local. 

Mas eis que, a rotina, ela me distrai. A tranquilidade em movimento é como a paisagem da infância a passar pela janela do carro da família, num fluxo tão veloz quanto constante, tudo tão interessante e monótono que mal dava pra ver quando já estávamos desembarcando em terras do sul.

Preciso de rotina. Para poder sobreviver ao disparar, estancar, respirar, re-disparar, preciso de alguma monotonia. Para que a poesia retorne, para que o corpo se ajuste, para a respiração voltar ao normal.

Atenção ao passo, então!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Da série REFLEXÕES POÉTICAS: Pré-aniversário

Quando eu era pequena, eu achava uma coisa MEGA chique uma pessoa pegar uma pasta tipo executivo e sair para uma reunião. Achava mesmo o alto do chiquê qualquer reunião; na minha cabeça consistia em um monte de gente em torno de uma mesa comprida achando soluções incríveis que seriam executadas por outras pessoas mandadas por elas.

(Meu mundo imaginário sempre foi meu playground particular...)

Achava chique também carimbo; alguém pegar um carimbo com seu nome e profissão, bater em um papel e assinar por cima, ai, achava o máximo do ser importante!

Achava 'A' coisa também uma pessoa passar um cheque. Como assim?! Um pedaço de papel que vale dinheiro, e que permite que você pague coisas caras com aquilo. Uau! Adorava.

O Destino é, já disse, um senhor de humor muito refinado. Aquela menina deslumbrada com a vida dos adultos virou, ela mesmo, uma mulher adulta cheia de demandas. Hoje eu hoje vivo, morro, me desfaço, derreto, revivo, retorno, não s.a.i.o de reuniões de variados graus de importância, tenho mil pastas e PILHAS de papel pedindo minha assinatura diariamente, tiro pelo menos 1 talão por mês... E olha que nem burocrata eu sou exatamente. Minha vida não tem nada do glamour que eu imaginava, mas a beleza de você se ver adulto e ainda conseguir manter o olhar de criança para algumas coisas, isso sim é pra mim da mais alta glamourização-de-todas-ever. 

(...)

Pensei nisso porque eu acabo de telefonar para um restaurante para fazer uma reserva. Para além do caráter prático desta ação, cada vez que eu dito para um atendente o número de pessoas que irão participar de um almoço/jantar meu e a pessoa lá, por sua vez, anota num papelzinho para deixar tudo pronto para quando chegarmos ao local, TODA vez eu me vejo como criança de novo, deslumbrada com pequenas ações de mínima importância e máximo impacto. Me sinto chique como eu achava serem os adultos engravatados, de pasta e canetas tinteiro, vivendo em torno duma mesona de madeira maciça.

Reservando uma mesa para meu aniversário de 29 anos (!) eu me senti deliciosamente deslumbrada de novo, como uma garotinha que sonha com o momento de ser ela a adulta bonita e glamourosa a pegar sua pasta de trabalho, sair para a vida e engolir o mundo.

Feliz pré-aniversário pra mim!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Da série MENSAGEM NA GARRAFA: Amar àquela que se odeia

O doloroso da morte é que com ela não se negocia. Para ela a gente não pode dizer Pára! ou Volte depois... ou Só mais um minutinho... Ela manda em nossos tempos. Ela coordena nossos ritmos.
Não há remédio, não há negócio, não há discussão, não há poréns.
Ela vem e vai. Sem nos consultar.
(...)
Hoje chorei de amor. Por conta do amor que sinto por um que sente amor por uma, eu chorei porque a Morte o desrespeitou e o machucou à toa. Como quando você engole um sapo que machuca fundo a goela, hoje vi uma pessoa tão amada com a garganta destroçada pelo tamanho da dor que precisará engolir. Essa ferida vai tão fundo e será tão longa no sarar... Talvez a goela desse meu amor nunca mais nem volte ao formato normal, talvez nem se ajuste mais ao tamanho correto dos dias antes-da-Morte. E por isso é tão duro: porque só nos resta o aceitar.
Mas se é tudo tão negociado nesses nossos tempos, se há em nós o ímpeto eterno de entender e resolver e ressaber e ceder e compreender, como conviver com o aceitar cego daquilo que a gente não iria jamais desejar? Como deixar passar pelo corpo, entrando pela boca e olhos e narinas e orelhas e não barrar o fluxo dessa dor ali na altura do umbigo, impedindo que a última pergunta se vá, mesmo que sem uma resposta? Como se despedir de nossos amores sem se dilacerar inteiro? 
Acho que não há mesmo um 'como' para isso. Cada vez mais creio que não há.
Talvez seja por conta de sua crueldade que eu nutra constantemente um carinho imenso pela morte. Como mulher enganada que insiste em olhar pelo ângulo mais positivo aquele homem que tanto a maltrata, eu a olho com olhar condescendente de quem já aceitou que serei obrigada a recebê-la vida adentro um tantão de vezes. Me contorço para achar-lhe um perfil belo, uma visão favorável... Talvez seja o caso de pintá-la de cores bonitas, recitar-me histórias doces, para que eu não lute em vão quando ela me bater à porta.
E eu tenho muita raiva da morte porque só me resta amá-la! Ela vive comigo, é mãe, irmã, conjuge e amiga; ela me acompanha em cada ciclo, então a única saída é dedicar-lhe meus bons sentimentos. Ela não me abandonará, nem a mim nem a nenhum dos meus.
(...)
Tentemos, portanto, aceitar a sua chegada. Mesmo quando a odiamos profundamente como neste exato momento.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Da série DECISÕES DO RAIAR DO DIA: Auto-silêncio

Lutando para criar uma rotina, constato como sou refém de estruturas em minha vida. Preciso (sim, pre-ci-so) de meu carro, de grana no bolso, de uma casa limpa, de telefone funcionando. E tal noção de minhas necessidades básicas ajudam-me, finalmente, a construir um caminho pessoal há tanto perdido.

Não abrirei mais as portas aos falsos torcedores, não desejo mais os perdidos por perto, não aceito dar-me demais a quem não for da soma. E isso soa um pouco trágico na vida de uma mulher que se criou cercada de problemas alheios, resolvendo as questões do outrem e servindo ao coletivo; de uma maneira sempre um tanto torta, mas ao coletivo inegavelmente. Preciso mais do silêncio, esse sim rebeldia extrema quando se tratam de pessoas como a que eu tinha escolhido ser. Mas alguma coisa no passo do rebanho não estava funcionando, e ajustar o trote mesmo que a golpes de foice nas partes mais fracas do todo se faz então vital.

Espero não ficar solitária, porque isso é em mim uma tendência. Mas enquanto eu não fizer as pazes comigo mesma, como abrir espaço para um outro? O enredo dessa insistência teria final já conhecido: começa com amores abertos ao todo e finda com quilos de ansiedade arremessadas de um lado a outro da sala de estar, não sem antes bem mirar a cabeça do pobre coitado. Não quero mais isso.

Quero paz, auto-paz, auto-paz! Não prostração, ou medo, ou palermice (outra tendência), mas uma presença completa que consiga ir além do correr feito louca ou nada-fazer-como-ameba. Quero presença real, sabe isso?!

Assim que bem souber onde estou (e isso passa por arrumar as coisas à minha volta, ainda pelo avesso), eu pelo menos já sei para onde ir. E vou traçar com carinho de menina-moça os próximos passos, não para prever o futuro, mas para ter um foco quando o vento soprar mais forte.

Em breve será tempo de chegadas de novos companheiros de caminhada, pressinto isso. Sem apressar o passo, estarei me preparando desde então para esses bons encontros. Por ora é fazer a minha parte, sorrindo atenta ao entorno, sem deixar-me aterrar minha profundidade num mar de incertezas novamente.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

DA SÉRIE PALAVRAS AO VENTO: Oração

Energias criativas misturadas ao sangue; tudo corre mais veloz agora. Foram meses de luto mudo. 
Silêncio que ecoava na pele.
E chorava copiosa por um morto de quem eu sequer sabia o nome.
(I wanna go home, buddy!)

E minha loucura engoliu o inconsciente e me fez ser randômica em todas as direções. Mas, gracias!, veio a indulgência contemporânea do trabalho, o autoflagelo do trabalho, a dolorosa concentração do trabalho. (Não necessita das rezas quem têm tantas contas a pagar. Meu Deus mora dentro de envelopes timbrados. Nunca entendi como ele se faz caber.)
O foco sai de dentro e vai parar em cima da mesa, empilhados de papéis que desadoecem o juízo. Não há mais padres, não há mais confissões anônimas, não há mais sigilo. A dor agora está exposta em linha e isso é, sim, alívio exibicionista de expandir-se ao infinito.

Chorei os mortos dos outros porque para os meus não cheguei a tempo. Sabe como é; o trânsito nesta época é uma loucura.

Erro e pane e freio e barulho e choque e grito! Ah!
Mas ainda bem que os envolvidos não se feriram. Não se espalharam no asfalto, deselegantemente virados ao avesso. Foi PUM e nada. Silêncio.
De olhos abertos, se foram sem dar uma palavra. Mortos, enfim.

(...)

Sorte minha passar ali bem no momento. Sorte dramática a minha.
Desprender algumas lágrimas com pelo menos um motivo aparente. Pouco importam os nomes mas sim os guinchos copiosos que finalmente posso deixar escapar.

Sorte minha desconhecer tantos nomes. Olhar de longe é mais fácil, sabe isso?...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Da série CHEGADAS E PARTIDAS: Farewell feelings


Quando eu anunciei a minha primeira partida, os meus novos colegas já começaram a gemer de desagrado. Don't go, Isabela! Após repetir isso inúmeras vezes para os afetos que se iam, seria a minha vez de escutar isso com sotaques suíços, paulistas, ucranianos, coreanos e tantos outros mais....

Mas nunca subestime minha capacidade de ser louca, e na primeira semana de aula no último nível eu descobri que eu teria 1 semana a mais do que eu inicialmente previra. Louca, louca, louca, a brasileirinha que sequer sabia que dia teria de partir viu todos os afetos re-sorrirem satisfeitos porque ainda nos restariam alguns dias.

Ainda assim, na 4ª feira da semana que seria a da partida, TODOS estavam na minha despedida, no tradicional bar de chicken wings. Mil fotos, declarações e bons votos, eu me sentia abraçada e muito amada por todos aqueles que, passo a passo, tinham aprendido a gostar de mim como eu gostava deles.

Esta foi minha despedida nº 1!

Na 6ª feira tínhamos uma festa na casa da minha-doce-Tia-ucraniana e do Rei-de-todos-os-reis-paquistanês para o que seria minha real despedida. A festa estava marcada e, mesmo depois de descobrir que aquele não seria meu último dia, não desmarcamos o encontro. Caipirinhas mil para todos, receitas trocadas com uma nova querida turca, algum stress por conta de ciúmes masculinos, música brasileira tocando e uma noite deliciosa com amigos.

Esta foi mais uma despedida, a de nº 2.

Na semana seguinte era minha partida: passagens compradas para outros cantos do país, malas em vias de arrumar, coisas organizadas. E estavam lá meus amigos queridos, de novo, na 4ª feira, me dizendo com todo carinho palavras lindas em sotaques variados. E eu já chorava...

Esta foi minha despedida nº 3.

No dia seguinte, família canadense reunida em torno de uma mesa. A conversa fluente em inglês demonstrava que meu objetivo lá tinha sido cumprido. Alegria demais com as lindas gêmeas, com o casal bonito de pais zelosos, com a filha que me deu um presente lindo, com os meus hostparents que fizeram tudo ser tão mais simples e especial para mim. Foi uma noite muito, muito gostosa, e me senti querida por aqueles que me viram por ângulos tão diversos aos dos meus amigos.

E tive minha despedida nº 4.

A última 6ª feira foi um dia de ansiedade. Eu tinha feito brigadeiros para todos os meus colegas para dizer-lhes 'Obrigado' à brasileira. Fiquei tão feliz em vê-los contentes apesar da tristeza diante da escola cada vez mais vazia. Depois daquele que foi o meu teste final (boas notas de novo, eba!), milhões de abraços e registros daquele que seria meu último dia na escola. A professora, linda e elegante como sempre, decidiu que pagaria um café para todos meus colegas de sala para me dizerem tchau.


E tive minha despedida nº 5.

O restante do dia foi essencialmente de ansiedade. Não fossem os que me esperavam aqui, eu não teria conseguido dizer adeus para os que me cuidavam lá. Crise de euforia, desespero, joelhos e testa no chão, respiração cortada e um choro copioso sozinha no meu quarto; tudo amparado pelos amores baianos, auxiliados pela tecnologia que faz o mundo ficar menorzinho... Graças a Deus que existem tais meios, graças a Deus! Porque consegui me conter, me fazer bonita, abrir um lindo sorriso e ir encontrar meus amigos para uma noite dançante. 

México, Suíça, Japão e Brasil se encontraram para, ao ritmo eletrônico, nos dizermos até logo. Foi um pouco difícil (Thanks a lot, my Sweet-heart, because you were so cute and sensitive about my feelings...) mas a música ajudou a relaxar e depois de uma hora eu já era a Isabela de sempre. E vamos dançar! Até que os meninos chegaram e (deleite total!) dançamos juntos ao estilo árabe, cortando o salão e estalando as mãos. Ai, que delícia!

Dizer tchau para minha Sweetheart foi um tanto desesperador, e agradeço ao Monsieur que me segurou para eu não derreter. Lindo, lindo, lindo. Um pedacinho foi embora com minha Meli, mas eu fiquei mais forte pelo amor que construímos.

E findei minha despedida de nº 6.

No dia seguinte foi de carinho e descanso, com direito a ser levada em casa para arrumar as coisas. Se a viagem prevista não vingou devido à tempestade de neve inacreditável que atingiu a cidade, o restante do dia fez algumas pecinhas que estavam soltas voltarem ao lugar de origem. (I'll miss you, you know...)

Mas no meu último dia, em uma congelante manhã de domingo, tive meu dengo final, com um delicioso café-da-manhã na casa de minha doce-tia. Panquecas, suco, conversa, fotos e a certeza de que a amizade que construímos sobreviverá ao além-mar. Amor daqueles que bronqueia, que manda você se cuidar direito, que manda você ser feliz, sabe?!

E no C-train vi minha doce amiga partir enquanto eu fazia meu último esquilo sorrir, findando assim minha despedida nº 7.

Durante o resto do dia, briguei com a minha bagagem até não poder mais, enquanto dizia 'obrigado/adeus' a alguns amigos e repetia 'tô chegando' para outros. Uma moça atarefada de afetos, tentando dar um último abraço no irmão-mexicano que foi fiel parceiro desde o primeiro dia na cidade.

Tive de deixar esse abraço latino para outra ocasião, porque meu 'pai' tinha preparado o seu prato predileto para nosso último jantar especial. Comida boa, vinho delicioso, fotografias natalinas e presentes maravilhosos que me arrancaram lágrimas por todo o cuidado ali expresso. Ai.... como vou sentir falta deles.

E findei minha despedida de nº 7.

Mas faltava ele, o menino que preencheu minha cabeça por longos e longos dias. E, depois da mala arrumada, ele estava lá para nossa última noite multicultural com música, sheesha, dança e amigos. Obriguei ele a entrar e prometer ao meus 'pais' que eu estaria em casa no dia seguinte sã, salva e a tempo de pegar meu vôo. E ele, lindo como sempre, o fez e me levou embora para eu lhe dizer tchau decentemente.

E foi mais uma noite deliciosa como todas as outras naquela casa-da-diversão, rindo com os moços de sotaque engraçado, ganhando carinho do rei-das-noites e explicando para minha alma que minha lazy-easy-life estava de fato terminando. E depois daquela que certamente foi minha última noite com aquele moço de sorriso tão bonito, voltei para casa sem aceitar ainda o que estava deixando em Calgary.

E, sem um final oficial, vi terminar minha despedida de nº 8.

(...)

O choro incessante no aeroporto na manhã seguinte tinha motivo tão óbvio que a atendente que me ajudava logo entendeu:
- You're sad because you don't wanna leave Calgary, don't you?
- Yeah.. I got here an wonderful time and great feelings.
- I understand. But don't forget: our city will be ever over here, my honey...
- I know... Eu sei. Por isso mesmo que dia desses irei voltar.

I see you soon, Calgary!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Da série MENSAGEM NA GARRAFA: Em memória dos meus

Eu sou uma espécie de raízes aéreas. Meus laços se prendem no alto da cabeça e não na planta dos pés. Não poderia ser amarrada por baixo, porque a agressividade dos passos ao certo me levaria ao chão. Mas meu material interno tende aos desafios, e a gravidade convida ao solo mas não controla o voo.

Pois que sou uma mulher de raízes aéreas. E se por genealogia essas raízes são mais frágeis, eis que elas se embebem de ar até o transbordo.

...

Sim, hoje é sobre saudade de casa

(...)

Não, eu não sinto falta do terreno conhecido sob os pés; já trago hectares inteiros amarrados a meu juízo. Desbravei por toda vida as sombras e caminhos e sabores e trilhas e sementes e clareiras dos que me são meus por direito. Dos meus, que recebem esta alcunha apenas porque me sabem deles.

Os meus...

Sinto falta dos meus, ainda que sempre encontre alguém bonito pra se emprestar para mim onde eu estiver. Não há como reclamar dos braços alheios mais longos do que de costume, das vozes que ecoam diferente, dos abraços que apertam em pontos imprevistos, das histórias que remetem a um outro lugar... Não, não poderia reclamar disso. 


(Eles me alimentam como a vizinha zelosa que cuida dos filhos alheios para permitir-lhes um saldo de ar fresco)

Mas os olhos dos meus são banheira de água quente onde me diluo sem medo de afogamento. Deleite dos que me entendem pelo arfar das ideias, acolhendo meus suspiros e os guardando num lugar seguro. 

Os-bonitos-que-se-emprestam-pra-mim têm, sim, águas mornas e sadias, bastante cheirosas tantas vezes, mas há alguma coisa que falta pra aquietar o corpo completamente. Esse nãoseiquê me dá desejo de ser o mundo bem pequeninho, tanto que bastasse uma corrida mais decidida para alcançar suas águas.

Eu amo os meus. Os que eu assim chamo porque me abriram suas portas, porque me revelaram seus cantos, porque me mostraram os espelhos escondidos do lado de dentro do guarda-roupas... desnecessidades de revelamento extremo. De tão e tanto é que esse exagero do compartilhar-se se faz tão vital. E nesses lugares minha alma pousa e respira.

Minhas raízes são aéreas e, hoje, apontam somente para o alto da cabeça daqueles que me têm com amor.

Obrigada.