Agradeço à presença de ontem que,
na leveza do que não sente culpas,
na frieza do descompromisso,
no sangue calmo que alimenta mas não consome,
me trouxe luz para eu poder me enxergar em meio à escuridão que o entorno oferecia.
(...)
Ufa. Que bom estar de volta!
quarta-feira, 31 de março de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
Vontade 1.
Minha vontade não é de sair. Não é de pensar. Não é de estar aqui.
Vontade de me esconder do lado de dentro. Descolar a pele dos ossos, das juntas, dos músculos. Torná-la largo envelope de uma alma amassada, que no desencontro consigo mesma terminou nua no meio da larga avenida. Esqueci o ponto de referência e giro em círculos cada vez mais longos e dolorosos.
(...)
Segredo 2.
Chorei. Hoje chorei como não fazia desde o dia em que decidi cuidar de mim mesma sozinha. Arranhando a porta da vontade que não se abre para mim. Uivando a lua já distante, que não serve para qualquer coisa mais do que iluminar a minha melancolia. Preferia melancólica e na penumbra, mas até na tempestade meu recheio traz um rótulo auto-explicativo bem claro. Ironias...
Surto 3.
Eu escolhi. Busquei. Pedi. Fiz. Peguei na mão, só para ter certeza que minha dor é de não saber o que quero. Eu não sei.
Pior! Eu creio que, em algum lugar bem remoto, eu traga todas as respostas e os planos de navegação de uma existência em eterno trâsito. Todas; que eu mesma teria escrito em longas madrugadas insones esquecidas logo após o nascer do dia seguinte. Acho que está tudo aqui, que tenho caminhado sobre elas, mas que eu desaprendi o idioma na qual estão escritas. Eu sei o caminho, mas não sei mais me orientar por seus guias. Eu sei ir, eu sei que sei, mas não acredito mais na memória. E a língua dos mapas&orientações me parece estranha agora, apesar de ter sido grafada com meu próprio punho. Como se nos instantes de lucidez eu corresse para registrar tudo, e o fizesse. E guardasse então as rotas com tamanho zelo para não as perder que, no momento em que me sento a alma na beira-da-estrada, eu desconhecesse os esconderijos por mim mesma inventados.
Eu queria ser de linha, de retas, de sólidos, de planos, de traço firme e não dessa droga de espuma flutuante que se desfaz ao som do vento. Dessa matéria que muda de cor, de forma, que se emaranha em si mesma, que se já é outra quando ainda nem entendeu a que se era antes.
Dor 4.
(...)
Grito 5.
Queria me descolar da minha pele. Queria largar esta existência aqui, sob meus pés. Amarrotá-la mesmo. Dispensá-la. Descartável. Queria poder começar de novo. Queria ser uma outra, a que fica e não a que vai. A que se finca e não se lança.
Queria querer de outros jeitos, com menos tinta. Queria uma para me guardar em meus sonos eternos de medo de tudo.Queria alguém que me olhasse dormir em mim mesma.
Queria pelo menos poder dormir aqui dentro, no calor do peito que poderia ser mais cálido.
Queria tanta coisa que desisto em mim. E eu sequer aprendi a fazer silêncio.
Eu preciso me dizer 'Pára!'. Mas no meu vocabulário só há 'corres', 'saltes', 'pules', 'lances'.
Pra onde vou agora?
Da série TELEGRAMAS DO MEIO DA TEMPESTADE: Casca e recheio
Que vontade de aprender a fazer um silêncio double-face...
segunda-feira, 29 de março de 2010
Da série CONFISSÕES E SUSSURROS: Oroboro
Tá, tá bom, eu admito, Isabela: eu quero! M.e.s.m.o! Tô a fim, com vontade, com querência, com fixação, desejo, ânsia, gana, desejo... chame como quiser, querida. Eu quero sim - você pegou meu coração no flagra, droga!
Mas o meu querer é de matéria fluida, diáfana, embaçada, feito de neblina; nem se engane. Um querer o 'como-poderia-ser' e não o palpável 'como-já-se-é'. E admitir isso é o começo do fim, já vimos em capítulos anteriores, lembra?!
(Engraçado eu não ter vontade de dizer nada disso a ele...)
A cobra morde o rabo. E, assim, o meu tanto querer há de nos levar a um des-querer de verdade, não é mesmo?
E vamo que vamo!
domingo, 28 de março de 2010
Da série DIMINUINDO A IGNORÂNCIA: Sendo levada pela mão
Minhas lições de música delivery têm caminhado com relativa lentidão (por indisposições metafísicas do professor selecionado para este fim. Mas isso é uma outra história, para outro post.. rs). Ainda assim, alguns tesouros já recebidos até então têm tornado meus dias mais agradáveis.
David-extraterrestre, Caê e os moços-da-rainha ajudam minha ignorância musical reduzir dia após dia. Ufa...
O bem-estar atual é patrocinado por Gil&Jorge, através do CD homônimo, que é pura e completa gastação. Uma delícia, repleta de sonoridades que me fazem lembrar porque cargas d'água a minha geração ainda escuta as criações dos anos 60-70 com tanto ânimo.
A preferida, por som e imagem e poesia que traz, é Meu Glorioso São Cristóvão, que de tão linda me fez ir atrás da historiografia deste santo, que conduziu Jesus Cristo nos ombros numa cheia-de-significado travessia num rio.
Ouvindo até o extâse, uma vez após a outra, para ver se garanto meu trânsito até o porto-seguro-da-felicidade-eterna.
PQP! Poesia pouca é bobagem!
Para nós, a letra:
Meu glorioso São Cristóvão
Meu glorioso mártir
Meu glorioso mártir
Portador de Cristo
Intercedei por nós
Nos flagelos terremotos
Incêndios inundações
Nas viagens de terra
Subterrâneo, mar e ar
Livrai-nos do pecado
Da perdição
Conduzimo-nos a Deus
Até o Porto Seguro
Da felicidade eterna
Imploramos por Jesus Cristo
Que conduziste nos ombros Amém
sexta-feira, 26 de março de 2010
Da série CONFISSÕES E SUSSURROS: Ainda em solo
Olhei e fui atraída.
(O precipício que convida com um piscar de olhos.)
Me lancei, sem me dar o trabalho de antes avaliar os planos e dados e plantas e cálculos dos especialistas contratados exclusivamente para este fim.
Aroma de risco torna tudo mais colorido.
Uivos de tempo perdido, antes do choque com o chão.
(...)
Ainda me debato, mas acho que permaneço inteira...
(O precipício que convida com um piscar de olhos.)
Me lancei, sem me dar o trabalho de antes avaliar os planos e dados e plantas e cálculos dos especialistas contratados exclusivamente para este fim.
Aroma de risco torna tudo mais colorido.
Uivos de tempo perdido, antes do choque com o chão.
(...)
Ainda me debato, mas acho que permaneço inteira...
quarta-feira, 3 de março de 2010
Da série CONFISSÕES E SUSSURROS: Espiral desenhando o Infinito
Ansiosa!
Ansiosas! As (muitas) Isabelas que residem aqui dentro estão desconjuntadamente eufóricas. Mundo que se anuncia com ecos de trombetas, sem no entanto se delinear frente aos olhos como seria de se esperar.
Eu pressinto um bom caminho, mas a falta de sinais e a acachapante necessidade de ser-se-por-si-mesma me apavoram.
Medo de me perder no meio da estrada e não ter, outra vez, ânimo de seguir sozinha. Não há mais graça no girar em círculos, no vagar a esmo, no uivar para Lua, no cavar sob os pés.
Ansiosa...
A certeza do onde se quer chegar, veja só que engraçado!, torna tudo mais definitivo e apavorante.
E a bagagem de coisas conquistadas pesa às minhas costas. Coisas que eu desejei, conquistei, agora as tenho e desejo. Mas o peso de lhes tirar o pó e lhes zelar e lhes usar e lhes compartilhar causa suor tamanho que quase lanço tudo para o ar e volto a correr nua pelos reinos distantes do Lugar Nenhum.
Ansiosa de não saber lidar comigo mesma...
Ansiosa pelo dia em que vamos, eu e eu mesma, pousar as armas e declarar paz infinita, criando uma terra de existência mais tranquila.
Não queria ter de matar Esta para renascer, pela enésima vez, uma Aquela que eu penso gostar mais agora. Queria brincar, uma vez que fosse, de ser borboleta a metamorfosear-se, que leva da lagarta ao menos a lembrança do ter-sido.
Basta de ser Fênix, de incendiar-me a cada novo nascer de dia e recolher das cinzas apenas os nutrientes para cultivar um novo solo distante da antiga casa.
Queria, um período de Primavera ou Verão ou Inverno ou Outono que fosse!, ser linha reta, ao invés de ser sempre espiral sem centro desenhando o Infinito.
(...)
Ai, que vontade de me ver dormir por longos sonhares...
terça-feira, 2 de março de 2010
Da série GRANDES QUESTÕES DA HUMANIDADE: Aprendizado mesmo?
Caminhando ao lado daquele-que-apenas-contempla-a-vida eu me pergunto, pulsando de desejos de compartilhamento, se estou finalmente aprendendo a esperar.
(...)
Se esperar entediar sempre tanto assim, acho que minha incursão por esse aprendizado não há de ser das mais frequentes....
Da série TELEGRAMAS DO MEIO DA TEMPESTADE: Mais um capítulo
Acontece basicamente assim:
Eu vejo o moço.
E eu escolho gostar dele.
Muitas, mas muitas vezes mesmo, ele tem apenas um detalhe muito pequeno escondido dentro de si que me permite ver o quanto estar ao seu lado pode ser divertido e gostoso. E isso me basta.
Aí eu quase sempre (porque faz parte do meu jeito ariana-com-Lua-em-Áries) vou lá buscar o moço.
E digo:
Oi, eu te vi passar aqui, te escolhi e vim te convidar para ir ali comigo. Veja aqui tudo o que posso te oferecer (e abro minhas valises de coisas bonitas recolhidas em anos de estrada). O que trago aqui dentro é muito valioso e bonito e especial e pode ser seu, se você me deixar chegar perto. E estou pedindo pouco em troca, porque o bacana para mim é ver você se revelar aos pouquinhos.
Quase sempre eu antevejo os tesouros primeiros que irão me apresentar. E restam, quando dá tempo de me mostrarem, muitos quilos outros de ouro&som&silêncios que me são revelados aos poucos, sem eu sequer ter imaginado existir.
Praticamente todas as vezes eu entrego logo na primeira esquina tudo-de-mais-especial-que-tenho para a pessoa porque sou ansiosa e acho que tudo é tão bonito que eu quero logo compartilhar. E nunca tenho medo dela roubar de mim meus tesouros, porque sou forte e se eu não quiser te dar eu tomo da sua mão e pronto!
(Ariana...)
Eu gosto de me dar ao outro. E de recebê-lo de volta, inteiro e do tamanho e peso que tiver.
Mas - e sempre tem um bendito 'mas' para dar relevo à história - quase sempre a minha empolgação soa de maneira terrivelmente pesada e aprisionante para o bonito interlocutor. E vejo a pessoinha partir em disparada com receio de tanta responsabilidade.
E olha que nem deu tempo direito de ela desfazer suas malas...
(...)
Tenho me perguntado se devo ir aos poucos, controlando minha alegria de viver esses tais momentos de compartilhamento.
Me pergunto seriamente, por outro lado, se isso não mataria 89,7% do meu charme ariano. rs
Me pergunto seriamente, por outro lado, se isso não mataria 89,7% do meu charme ariano. rs
(...) (...)
Reflito mais um cadinho e quase sempre concluo que, na verdade, me mostrar por completo é o teste de força final para fazer a triagem necessária dos candidatos a Ulisses que vez ou outra se apresentam na sacada desta Penélope.
Mocinha bonita e bem-educada, sim; mas com uma alma de Velocino que coloca os mais frágeis para correr.
Não sei se prefiro companhias sem-graça, mocinhos tísicos ou o meu tear solitário mesmo. Por ora, tenho ficado mais com a última opção, sem medo de perder o viço e os candidatos desaparecerem de minha janela.
(...)
Suor, sangue, lágrimas. Viver é se fazer, desfazer, refazer. Viver é fluido! (...) O resto é existência café-com-leite.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Da série CONFISSÕES E SUSSURROS: Para o alto e avante!
Lendo o blog de uma moça que não enxerga nem metade da capacidade que tem e prefere ficar se lamuriando da vida (atenção, amigas! Sem conotar, hein?! Se por acaso teimar em pensar que se trata de você, me pergunte ao invés de ficar pensando um monte de m*, all right?) eu me perguntei porque eu caminho com tão mais firmeza do que ela. Na prática, minha vida não é melhor que a dela em nada. Mas eu insisto em sorrir e ela em resmungar. Por quê?
Mas antes, um preâmbulo: costumo ler o blog de determinadas pessoas, conhecidas e desconhecidas, onde o tom do derrotismo impera. E sempre me pergunto: por que eu faço isso?
Respostas possíveis:
- Porque preciso me sentir melhor que o outro (me arrepio só de pensar que pode ser isso, de tanto que odeio esta alterntiva. Mas também tenho que trabalhar com a possibilidade de ser isso mesmo...);
- Porque gosto de gente, e poucas vezes como nos blogs as pessoas mostram tão desavergonhadamente suas entranhas;
- Porque eu me ponho na situação e isso serve para eu resolver uma questão similar da minha própria vida;
- Porque eu gosto da miséria dos outros (hum.... isso não acho que seja não. Horror disso!);
- Porque eu não tenho P.N. melhor para fazer (mentira.... minha orientadora que o diga..rs)
Entonces, o fato é que eu sempre procuro ler esses tais blogs. E eu, mocinha louca-ansiosa-estressada-ciumenta-insegura-confusa que sou, sempre repreendo intimamente tais autores. Não pelo conteúdo, mas pelo tom.
Me dá uma angústia tremenda gente que sente pena de si mesma. Mas, mais ainda, tenho pavor de gente que acha que a vida não vai dar certo. Que droga!, se for para pensar assim, sai logo de cena, gata! Mas se é pra lutar, lute com entusiasmo, pelo menos, porque é o que nos resta.
Eu costumo dizer que sou uma trágica otimista. Eu sempre tenho CERTEZA de que tudo vai dar errado, que vai ser uma merda, que vai acontecer uma catástrofe, que eu vou errar, que o mundo vai explodir e que eu sequer vou morrer e vou viver na Terra devastada sozinha e sem ninguém. (Dramááááááática). Mas, juro, eu sempre penso que vai dar tudo errado se eu for por onde eu escolhi ir. E que vai dar tudo igualmente errado se eu for por onde eu NÃO escolhi ir - senão eu tinha escolhido ir por ali (veja só o grau de maluquice da pessoa...rs). Penso esse tanto de merda pelo simples fato de achar que eu não sei fazer escolhas e que eu sou uma louca desvairada se atirando no escuro dia-a-dia.
(...)
Pois bem; apesar do pânico que me acomete de-com-força todos os dias em que acordo, eu sei bem que a tal da Vida é mocinha faceira casada em união de bens com S. Movimento. E que é preciso seguir em frente, sempre e todo dia. Então eu vou. E de peito aberto e fronte levantada, para enxergar bem o porvir (e para pelo menos pa-re-cer segura do caminho).
Mas, Isabela, e o pavor de tomar o caminho, onde é que fica?
Aí então é que aplico meu ultra-mega-super-secreto segredo diário de existência. Eu pego a minha bela corda chamada Entusiasmo e as correntes chamadas Otimismo e amarro com força o tal do Medo-de-viver. Não que eu saiba mil truques e nós de marinheiro imbatíveis, mas faço um emaranhado doido lá que pelo menos atrasa o bicho e dá tempo de eu pegar a reta. Simples assim.
Deixando de lado as metáforas lúdico-vagabundas, friso: a vída é complicada sim, dá medo, sim; dá cansaço, sim; eu.preferia.fazer.outra.coisa.de.vez.em.quando, sim. Mas é o que temos, ora bolas! Entonces, seguir em frente é inerente ao estar-se aqui. E, mesmo SABENDO que tudo pode dar errado sempre podemos TORCER para tudo dar muito do certo. Assim, meio Poliana mesmo, por que não?!
Aí, volto à pergunta inicial: por que eu caminho com tão mais firmeza? E me vem algumas respostas, sem certeza de nenhuma: porque gosto do exercício que o caminhar me proporciona; porque eu fico prestando atenção na estrada e esqueço da seriedade de se estar aqui; porque eu no fundo acho que pode ser divertido; porque eu não tenho P.N. melhor para fazer do que viver minha vida com vontade e furor.
Afinal de contas, a outra opção não parece tão mais interessante assim, né?!
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Da série HISTÓRIAS DE PÉ DE OUVIDO: Baianidades construídas
Foi assim:
Eles se conheceram num grupo de jovens da Igreja Católica e casaram. Ainda no Paraná. Ela grávida de uma criança que viria a ser um homem dos mais inteligentes já vistos. Eles num pacto de respeito mútuo que perdurou e se atualizou por dezenas de anos.
Ele prestou um concurso e os 3 atravessaram o país para viverem a Bahia da década de 1970. Choque de cultura alimentado por preconceitos assimilados pelo mundo todo.
Ela se viu muito tempo sozinha enquanto ele moldava na cidade vizinha os sólidos tijolos de uma vida estruturada.
Ele se viu perdido em referências que não eram as dele.
Eles recusaram uma cultura que lhes parecia selvagem e desorganizada demais. Ainda que bonita, em certa medida.
Respeito sim. Assimilação, no entanto, preferiram não.
Veio então um outro pequeno menino, inteligente como o primeiro.
Veio por fim a menina-quase-sem-nome, quando tudo já parecia mais calmo. Sorte dela!
A identidade deles, dessa família, residia a mais de dois mil quilômetros de distância do sol e calor e barulho e cheiros e sabores da terra em que vieram se alocar. Eles eram uma ilha flutuante, que retornava as origens a cada ano para se lembrarem quem eram de verdade.
Anos de conflito em silêncio quebrado por som de choro quando o terminal de S. Joaquim se anunciava no final da estrada de volta.
Dos 5 habitantes da ilha, foi ela que nasceu com mais pistas da brasilidade escondida sob verniz colonizador. Boca, cabelo, seios, olhos, bunda; mistura de negro&índio&europeu irrecorrível.
Nenhum padrão dado pelo invasor receberia bem tanta promiscuidade daqueles genes. E ela notou isso bem cedo...
(...)
Ela cresceu e teve sorte de entender, através de seus entes de ilha, a importância da boa convivência com a diversidade.
Cor, raça, religião, função social, naturalidade, preferências musicais ou gastronômicas nunca foram barreira para sua fome de novidade. Vontade de amigos. Medo de isolamento em ilha pequena demais sob os pés.
E foi desbravadora solitária das terras dos estrangeiros que os cercavam. Eles eram os donos da terra, afinal! Política-de-boa-vizinhança aplicada por anos a fio. Provou de tudo. Menina-caraíba, em casa de outrem, sem medo jamais do escalpe. E sempre bem-recebida na volta pra sua taba, mesmo quando transfigurada em Menina-com-pele-de-cor.
Para ela era questão de encontrar iguais, para sobreviver quando não tivesse mais os seus, que a entendiam mesmo na máxima diferença. Muitos sabores, é verdade, lhe pareciam acres demais. Crus demais. Mas aceitava o que lhe colocassem no prato sem fazer cara feia. Estratégia de batalha e prevenção para os dias de tempestades que a vida adulta sempre traz no ventre.
Em dado momento (ai, que loucura é a adolescência!) os passeios para as terras de outros se reverteram em lutas em sua própria terra. Expedições de observação sempre foram bem vistas, mas a assimilação e compartilhamento de hábitos alheios não eram recomendados.
Mas a carne que crescia por baixo do fino verniz colonizador era tão mais forte do que toda vontade de se ajustar à regra... E compreender isso fez tudo o que ainda lhe cobria virar apenas pó inútil sobre a pele.
E ela se viu nua. E sozinha.
E os cabelos se viram mais fortes do que os das supostas semelhantes de taba. E a boca mais grossa. E a voz mais alta. E as curvas mais acentuadas.
Mas, ao mesmo tempo, na casa do vizinho (que na verdade era o dono da terra toda que contornava sua ilha) suas nuances pareciam demasiado delicadas. E ali ela não era uma semelhante. Ela era apenas uma visita.
E chegou a hora de se entender filha de uma terra-do-meio. Filha da fronteira de terras. Fruto do encontro e da mistura. Do limite. Do entre.
E percebeu que passear sozinhas em terras hostis lhe ajudava a encontrar-se consigo.
Veio então o sonhado passeio na terra dos ancestrais mais brancos. La Tour Eiffel e redondezas eram desejo ninado por anos. Ela achava que falar a língua e travestir-se em local serviria de algo.
Tolinha...
E essa expedição fez ela conhecer uma dor diferente. Após renegar sutilmente o entorno de sua ilha ela se tornara um ente sem referências de verdade. Ela não poderia nunca se confundir com as locais de pele rosada. Era apenas uma visitante vinda de uma terra sobre a qual nada sabia. Da qual pouco consumia, devaneando ilusões de fazer parte da História dos colonizadores do além-mar.
Essa Bahia que você cita eu não conheço. E esta terra que eu piso agora não me reconhece.
Dor de não ter lugar para se pousar. Planta sem raiz. Estrangeiro sem passado.
Solidão de não ser de lugar nenhum.
(...)
Aprendeu então a ser bicho que leva a casa nas costas porque nem sempre encontrará a porta aberta na terra em que visitar. E para ter sua casa sobre os ombros o primeiro passo era se alimentar de sua própria terra-natal, para trocar pedaços de sua vivência quando visitasse a morada dos outros. Se encher de presentes locais para barganhar em terras estranhas.
O espelho pelo cocar.
E para isso era vital aprender a sua própria morada. E as expedições antropológicas recomeçaram.
Vestes, cabelos, dança, palavras, história, geografias, cores, sons. O que for da terra que pisa desde criança será seu também. Está decidida a costurar pedaços dessa Bahia na sua carne, para acalentar o espírito na visita a solos alheios. Porque ela vai partir um dia, e precisa estar preparada para ser estrangeira por longos tempos novamente.
Se é ou não uma assimilação artificial e forçada de um entorno que nunca consumiu naturalmente, ah! isso é outra história..
Mas o fato é que tem se aplicado no exercício de estender os limites de sua ilha por sobre a terra-Brasil que a cerca desde sempre.
Da série CONFISSÕES E SUSSURROS: Poemas de embalagem de chiclete
Agora eles batem direto na porta e sussuram palavras doces copiadas de livros para adolescentes. Confusões travestidas em certezas que me fazem ensinar calmamente a rota de volta para os mocinhos perdidos.
"Paixão é outra coisa...você está apenas confuso..."
E docemente recolho suas letras embaralhadas que deixei cair na calçada da frente por puro desinteresse. "O que você quer que eu diga?". Nenhum dos presentes ofertados tinha o tamanho ou a cor ou a textura ou a serventia certa para meus dias de solidão. O carinho do outro não há de ser placebo de coisa alguma, mesmo nos mais quentes momentos pré-Carnaval.
"Se quiser voltar, volte outros dias..." Mas venha de boca nua, por favor moço bonito, sem dentes armando botes para sugarem minhas certezas cangote afora. Eu sou minha, minha, minha, e não vou deixar convidado algum pilhar-me o menor dos pedaços.
(...)
Ai de mim se acreditasse nas cantigas frouxas de amor recitadas ao pé da janela pelos rapazes perturbados por suas vontades...
Da série GRANDES QUESTÕES DA HUMANIDADE: Verdade ou fingimento
Eu estou fingindo ou de fato tenho me convencido que a opinião do outro sobre oquequerqueseja pouco importa?!
domingo, 31 de janeiro de 2010
Da série CONFISSÕES E SUSSURROS: Mea culpa
Devo admitir para mim mesma que tenho um problema.
(...)
Ainda não apareceram os ônus, mas eles virão, porque minha intuição é mulher sábia e poucas vezes se engana quando se tratam de meus suores do corpo.
Abri o embrulho e sorri porque tinha a cor que eu esperava. E a textura. E o cheiro. No pacote vieram coisas muitas, todas com sabor de Sol; mas que os problemas igualmente recheavam a embalagem e eu, apesar de ter percebido de cara, comprei o produto mesmo assim, isso eu tenho que confessar...
Gosto de cicatrizes. Machucados me lembram que eu tenho sangue nas veias. Admiro os de experiência encarnada. Tenho chifres de carneiro que não canso de testar.
Então, como eu poderia me furtar de mais este salto-duplo-de-costas pelos céus quentes de meu querer?
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Da série GRANDES QUESTÕES DA HUMANIDADE: Louca-de-atar
Corri contra o Tempo por anos a fio e terminei chegando atrasada de todo o modo. O que a gente faz com vontade que não pode? Como a gente resiste a veneno que a gente gosta e é doce e derrete na boca e nem sequer mata; mas que a gente sabe que é veneno dos brabos, que carrega junto bom-senso&equilíbrio em troca de uns poucos gramas de sorriso crescente?
Como a gente se segura diante da vontade?
Virada na Penélope Cruz, me sei, mais do que nunca, uma louca-de-atar das categorias mais bobas e ruidosas de todas as disponíveis no mercado
Como a gente se segura diante da vontade?
Virada na Penélope Cruz, me sei, mais do que nunca, uma louca-de-atar das categorias mais bobas e ruidosas de todas as disponíveis no mercado
domingo, 17 de janeiro de 2010
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